Quarta Farta – Dieta da Tralha (2)

Quantas vezes abrimos aquele caixote de tralha do qual teremos de escolher o que vai e o que fica e ficamos pelo menos meia-hora a folhear aquele livro da nossa infância ou a recordar bons momentos com as fotos dos tempos de faculdade? E com isto perdemos tempo valioso e acabamos por nunca nos decidirmos e o caixote fica pedra e cal naquele cantinho que até dava um jeitão para colocar a cadeira de baloiço… Esta reacção é muito comum e tem um nome:

Sentimentalismo

A palavra parece algo brusca e com sentido pejorativo, mas na verdade pretende identificar uma das relações que podemos desenvolver com os objectos que temos em casa. É talvez a ligação mais comum que podemos ter: ao longo dos anos, vamos atribuindo memórias, sensações e momentos da nossa vida a cada um dos objectos que temos em casa. É humano e é saudável que assim seja: as nossas vivências deixam sempre marcas, rastos e é de todo natural que a nossa mente faça digressões a analise o que foi para perceber o que será. No entanto, esta ligação pode funcionar contra si, quando não lhe permite avançar e bloqueia a sua capacidade de decisão.

Quando temos pouco espaço para roupa e continuamos agarradas aquele camisolão antigo, poeirento e mal cheirosa que usamos na época dos anos 80, o mais lógico seria doá-lo (se estiver em condições), mas a nossa ligação é tão forte que acabamos por dar-lhe mais uma oportunidade e o seu armário acaba pejado de boas recordações do passado e muito pouca coisa do momento presente. Se multiplicar este acontecimento por 1000 terá a sua casa carregada de muitos objectos que a serviram no seu tempo mas que agora precisam de ir embora para dar espaço a novas recordações, ao momento presente e a um futuro mais límpido.

Como dar a volta a esta situação? O melhor, sem dúvida, é fazer esta selecção com alguém do seu lado que a vá chamando à razão. Se possível, não pegue no objecto em questão, sobretudo se a superfície for macia. Está estudado que o tacto tem um papel sobejamente importante na nossa memória, funcionando como um reactivador a que vamos chamar Simpatia Cinestésica.

Sempre que tocamos numa peça de roupa, num peluche, num objecto com uma textura particular, as sensações tácteis que nos percorrem vão reactivar áreas no nosso cérebro que nos colocam imediatamente numa “zona de conforto”. A imagem mais forte que define esse conforto é a de uma criança enfiada num puff muito fofo que a envolve por completo. Essa sensação sobrepõem-se de tal forma ao resto que nos ficamos completamente impedidos a afastarmo-nos desta sensação e, por conseguinte, do objecto que a provoca. 


O truque está também em perguntar-se se utilizou o objecto em questão nos últimos 6-12 meses. Se a resposta for negativa, então a solução está à vista: o descarte, a doação ou a venda.

E se houver mais dinâmicas pessoais em jogo? O que fazer quando a nossa mentalidade de poupança leva a melhor e nos obriga a acumular bens dos quais nem metade serão usados? Descubra na próxima Quarta Farta!

Boa Quarta e Boas Sensações!

anne-geddes-baby

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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