Quarta Farta – Dieta da Tralha (3)

Quantas vezes lhe ofereceram objectos e items que, na melhor das hipóteses, são um pequeno tiro ao lado no alvo das suas predilecções? E quando isso acontece quais são as suas reacções? O que planeia fazer?

Nem sempre é fácil lidar com objectos e bens indesejados logo à partida, especialmente se a pessoa que nos ofereceu nutre por nós uma intensa amizade ou um laço familiar muito forte. Hoje iremos falar um pouco sobre uma outra ligação disfuncional que podemos estabelecer com os nossos bens.

Culpa / Responsabilidade

Este tipo de ligação é bastante comum e normalmente é bastante complicado de resolver e gerir. Advém efectivamente de uma oferta de um bem que não precisamos / não gostamos e que, logicamente, não deveria ter lugar na nossa casa. O problema começa com a relação entre esse objecto e a pessoa que no-lo ofereceu: seja porque é um pessoa de família ou um amigo com quem temos uma relação especial ou uma ligação forte, seja porque é alguém que se ofende facilmente ou cuja auto-estima poderia ser abalada por uma iminente rejeição, torna-se imperativo manter esse objecto em nossa casa para não quebrar esse afecto condicionado. Nalguns casos, a nossa relação com essa pessoa não é das melhores e acabamos por ver na conservação de algo oferecido pela mesma como um remedeio, uma forma de compensar a nossa falta. A nossa Culpa acaba por ter um lugar de destaque e a longo prazo essa relação viciada ou enviesada que temos com a pessoa e com o objecto em questão acaba por nos prejudicar, sobretudo se começamos a acumular vários objectos, várias relações em falta e várias culpas.

Outra situação muito frequente advém do óbito de um familiar ou amigo próximo que nos deixa alguns bens em herança, bens esses que, mais uma vez, nada contribuem para a nossa esfera pessoal ou familiar. E, mais uma vez, acabamos com a nossa garagem cheia de caixotes com bens que nunca iremos usar mas que simbolizam a nossa bagagem emocional, relações perdidas no tempo e na memória, afectos cristalizados sob forma de estátuas de golfinhos empoeiradas e bonecas de porcelana de olhar vazio.

O grande reactivador deste tipo de situações prende-se com a visita iminente da pessoa-alvo de toda a relação disfuncional. Dá-se então aquilo que eu gosto de chamar a dança da reposição: o quadro do menino da lágrima volta para um lugar arranjado à última hora na sua parede bege, a jarra branca com cisnes pintados à mão acaba por cima da cómoda do seu quarto, os naprons de renda rosa ainda por passar em cima da mesa da sala de jantar.

Qual é então a grande solução para este problema? Não existem soluções plenamente adequadas e tem de se ver caso a caso. Se se tratar de uma situação de herança de bens da pessoa falecida, pode sempre distribuir os mesmos bens por vários familiares ou até amigos de família que possam prestar o respeito devido às peças em questão. Em todos os outros casos, a melhor solução é a mediação e o equilíbrio. No fundo, a pessoa que vem visitar quererá estar consigo e não com os objectos que lhe ofereceu. Se a pergunta fatídica vier a lume poderá sempre apresentar um argumento válido que a leve a considerar e a compreender a sua situação. Mais uma vez conta o peso e a medida: arranje também um caixote (e só um caixote, dependendo do espaço que tem em casa), em que colocará todos esses artigos que nada acrescentam ao seu dia-a-dia mas que poderá ocasionalmente trazer à luz do dia sempre que tiver uma dessas visitas.

Já pensou no lado negativo de uma mentalidade ecológica demasiado exacerbada? Venha descobrir connosco na próxima semana!

Boa Quarta e Boas Visitas!

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About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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