Organizar é Transformar

Organizar é um processo. Implica planeamento, estratégia, motivação, implementação e empenho.

Todos os processos tem sempre como motriz fundamental a mudança e a transformação. O desejo a priori de passar de A para B. Sabe-se à partida que a realidade em que nos encontramos no início de um processo muda drasticamente quando chegamos à conclusão desse processo. Quando entramos num processo de organização, declaramos a nós mesmo e ao mundo em nosso redor o nosso desejo de mudar. De transformar o paradigma.

Mas, na verdade, a verdadeira mudança e transformação começa no interior. Opera-se em nós pouco a pouco o ensejo de algo melhor e que nos faça sentir mais completos. Deseja-se a harmonia exterior mas é a procura pela harmonia interior que nos leva a tomar o primeiro passo.

E assim quase de mansinho, dia após dia, olhamos em redor e essa procura torna-se mais evidente e transparente e começamos a sentir-nos mal na pele que usamos. Essa muda de pele impera e cabe a nós tomar uma decisão. E é essa tomada de decisão, é essa ousadia em querer mais o grande motor de toda e qualquer transformação. É um acto de coragem admitir que o que somos já não nos satisfaz, já não nos é suficiente. E o primeiro passo, o mais importante está tomado. Admitimos que está na hora de mudar. E depois? O que se segue? Como ganhar balanço para o próximo passo que requer grande energia e maior empenho? Ousamos sonhar com mais mas agora como criar os alicerces do sonho?

Depois começamos a medir e a pesar. Apercebemo-nos do que temos que mudar em nosso redor: aquela pilha de documentos fiscais do ano passado que nunca mais foi digna do nosso olhar, aquele cantinho do escritório com pilhas de livros que já não lemos, que já perderam a centelha divina que nos fazia lê-los vezes sem conta, o armário do nosso quarto sôfrego de novos ares e novas companhias atulhado de velhas esperanças como aquele vestido dos nossos 20 anos que se calhar no próximo ano vai-nos servir ou aqueles sapatos lindos de salto alto que até nem doem assim tanto se não se caminhar muito.

A desarmonia exterior que contemplamos espelha o conflito que temos dentro, reflecte todas as questões que ficaram por resolver. Todos os “SEs” que ficaram no ar e que prometemos libertar da sua escravidão condicional. E de repente o que temos em nosso redor explica-nos e observando esse exterior apercebemo-nos desses conflitos, dessas questões em aberto.

Afinal não arrumámos a pilha de documentos fiscais do ano passado porque entretanto estávamos à espera de conseguir resolver aquela questão do IRS porque é impensável que tenhamos que pagar tanto. E realizamos a nossa condição de precariedade, realizamos que provavelmente o que tínhamos de pagar era a quantia correcta, mas o que ganhamos não é suficiente para garantir aquela segurança que ansiamos mês após mês. Dar um lugar e organizar esses documentos significaria que aceitaríamos essa realidade e encerraríamos a questão, mas preferimos deixar tudo cá fora na esperança que essa não seja de facto a nossa realidade. Porque a incerteza é mais fácil de aceitar que uma realidade mais dura.

A seguir, voltamo-nos para a velha pilha de livros e subitamente pensamos na nossa juventude, nas matérias que estudámos e que hoje até já nem fazem sentido porque entretanto estamos a trabalhar noutra área, mas um dia até poderão servir para os nossos filhos. Pegamos num desses livros de capa velha e letras apagadas e recordamos a pessoa que fez dele nosso presente, um presente que nos permite uma ligação fictícia com essa pessoa mas que não tocamos (nem lemos) há mais de uma década.

E, reluctantes, abrimos finalmente o armário do nosso quarto e enfrentamos a realidade que há muito queríamos evitar e negámos ano após ano após ano: já não temos 20 anos e o vestido provavelmente já não nos servirá porque o nosso corpo mudou, quiçá pelas melhores circunstâncias (os nossos filhos), o que não muda a nossa sensação interior de irreversibilidade tão devastadora quanto imperativa. Tão arrebatadora que a escondemos dentro do armário sob a forma de um vestido carregado de vãs esperanças. Juntamente com aqueles sapatos que nos irão sempre lembrar de uma compra feita à pressa e queremos negar porque preferimos acreditar num universo alternativo em que não cometemos erros e não gastamos dinheiro em frivolidades só porque são bonitas (em suma, um universo em que não somos humanos).

Feitas as contas, vemo-nos face a face frente ao espelho e percebemos os porquês de tanto desconforto interior e de tanta desorganização exterior. É-nos dada a oportunidade rara de dar uma resposta a esse desconforto que finalmente compreendemos. E a melhor palavra para descrever o passo a seguir é Aceitação.

Aceitar que infelizmente vivemos em precariedade e que o mundo em que vivemos não é perfeito e que não contém soluções perfeitas para os nossos problemas. Aceitar que precisamos de fazer algo para mudar a nossa situação profissional para podermos alcançar a segurança tão ansiada. Aceitamos essa mudança e esse desafio. E damos finalmente um lugar aos nossos documentos fiscais.

Aceitamos que o conhecimento que nos serviu no passado deixou de ter um propósito no presente e que o que nós aprendemos ontem poderá já não ter relevância hoje. Aceitamos que o nosso conhecimento se tornou redundante mas aceitamos também que essa redundância não nos define. Olhamos para o que somos hoje graças a esse conhecimento e sentimos essa gratidão. Aceitamos que nos distanciamos da pessoa que nos deu aquele livro de capa velha e que a relação que temos com o livro não é substituto da relação que tínhamos com essa pessoa. Pousamos o livro e pegamos num telefone. E colocamos a pilha de livros numa caixa para os doar finalmente a uma escola.

Aceitamos que o nosso corpo mudou e que envelhecemos. Aceitamos também que essa mudança não tem necessariamente que ser negativa e que o nosso corpo é tão bom hoje como foi ontem. Especialmente porque foi protagonista e cúmplice do nascimento e crescimento dos nosso filhos e, sobretudo, do nosso envelhecimento em graça e espírito. Como um bom vinho. Da Kopke, de preferência. Aceitamos também que somos seres humanos, dotados de uma maravilhosa imperfeição que nos leva a cometer erros como comprar um par de sapatos só porque eram lindos embora desconfortáveis. Aceitamos que o nosso radar de compras possa por vezes estar desligado e que somos seres susceptíveis de gostar de coisas bonitas sem pensar em demasia. Paciência. Pegamos no vestido e nos sapatos e colocamos à venda no OLX. Com as devidas referências ao grau de desconfortabilidade dos sapatos.

Aceitamos a mudança e a transformação no interior faz-se exterior. E de repente sentimo-nos mais leves, mais resolvidos. Mais livres.

Boas Transformações!

Goldfish-Changing

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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