Sobre Destralhar e Organizar

Nos últimos tempos tem andado muito em voga nas livrarias de todo o mundo um livro que se transformou no ícone e padrão da Organização Profissional para muitos, conhecedores ou não da nossa profissão: “Arrume a sua Casa, Arrume a sua Vida” de Marie Kondo (título original: “The life-changing magic of Tyding-up”).

Neste livro a autora, conhecida pelas suas listas de espera de três meses e pela muita clientela em terras do Sol Nascente, advoga o minimalismo como modo de vida, aconselhando donas de casa, estudantes, profissionais liberais, solteiros e casados a “purgar” a sua casa de tudo o que está a mais, tudo o que não tem lugar na nossa vida e tudo o que não tem nenhum tipo de relação emocional connosco.

Do outro lado do charco, no Brasil, cunhou-se um termo que ajuda a transformar uma expressão complicada em algo simples e que veicula na perfeição o que nos aconselha Kondo: Destralhar. Este termo tem sido também cada vez mais usado por aqui, sobretudo pela minha colega Lígia Noia nos seus workshops que muita gente tem ajudado.

Neste termo quer conter-se a força motriz que traz a promessa da libertação de algo que nos sufoca cada vez mais e nos tolda o pensamento e as acções. A tralha não tem por isso lugar em nossa casa e torna-se assim na persona non grata que há muito andamos a negar.

No seu livro, Marie Kondo dá instruções precisas para que essa “purga” ou “destralhamento” da nossa casa ocorra consoante aqueles que são os seus parâmetros de perfeição, conceito defendido pela autora como algo de almejável, sem pudores e modéstias falsos num puro acto de rebeldia contra já conhecidas e usadas teorias em que se advoga que a “imperfeição é a perfeição do ser humano”. Segundo esses parâmetros, o destralhamento não deve ser prolongado e arrastado e deve ser aplicado a todas as áreas da casa e a todas as categorias de objectos. A autora é defensora acérrima de um destralhamento “sem prisioneiros” e sem qualquer misericórdia, reduzindo drasticamente a quantidade de tralha que temos em casa.

Desta forma, com menos tralha para organizar, gastam-se menos energias e menos tempo e ganha-se em dedicação a outras áreas de interesse. Esta relação entre o destralhamento e a organização é lógica e evidente, mas a meu ver por si só e feita segundo esses parâmetros não prepara correctamente a pessoa para uma relação saudável com os seus objectos, nem tão pouco lança as bases para uma boa organização.

Ora organizar não é senão o acto de colocar cada objecto no seu lugar, segundo um paradigma, um sistema criado à medida da pessoa e do espaço, regulado e adequado consoante as circunstâncias e submetido a um esquema diário, semanal ou mensal que permita a sua eficácia e verificabilidade.

Se nos livrarmos completamente dos objectos que possuímos, o que temos nós para organizar? Não estaremos a tentar evitar organizar? Neste acto de libertação, esquecemo-nos de lubrificar o nosso motor cognitivo e de dedicar algum espaço ao acto de organizar, que permite verdadeiramente criar uma relação saudável com os objectos. O desapego por si só não basta.

Este método advogado por Marie Kondo apresenta assim algumas falhas que se poderão verificar com o passar do tempo.

Antes de mais, é sempre necessário ver os seus conselhos à luz da sua própria cultura. Valores como a honra e a disciplina imperam e populam o imaginário japonês, fazendo com que seja bastante mais fácil e natural para alguém pertencente a essa cultura manter o esquema rígido de destralhamento sugerido pela autora. A perfeição é mais facilmente atingível quando o erro é evitado a todo o custo por medo da desonra e quando a disciplina sobeja. Por esse motivo é tão fácil nesse contexto falar-se de perfeição, valor naturalmente alcançável e atingível. Outras culturas como a cultura mediterrânea terão mais dificuldade em atingir esse objectivo inverosímil porque simplesmente não estamos preparados nem fomos educados nesse cluster de culturas orientais onde a disciplina quase militar e o amor pela perfeição são o principal ingrediente.

Outro aspecto a sublinhar prende-se com a timeline sugerida pela autora para esta iniciativa. Não nos podemos esquecer que em grande parte as casas e apartamentos no Japão são de dimensões mais reduzidas em média do que as casas no continente europeu ou americano, onde se dá muito valor ao espaço e onde a densidade populacional é bastante menor. À partida, onde existe menos espaço, há menos lugar para existir tralha a mais. Por outro lado, a cultura japonesa é já de si uma cultura minimalista. Por esse motivo será mais prático e verosímil optar pelo destralhamento em curto espaço de tempo por uma mera questão logística. Será talvez mais complicado de aplicar esta regra a casas maiores, com mais de um andar, que constitui ainda uma boa fatia das casas portuguesas e onde se verificam os maiores problemas de organização.

Outra consideração a ter diz respeito a casos mais específicos não contemplados pela autora e que poderão ter alguma dificuldade em seguir à risca o programa sugerido pela mesma: os chamados hoarders ou acumuladores.

Este grupo normalmente apresenta um problema de desorganização crónica que tende a piorar com o tempo e que nunca é apercebido totalmente pelo seu protagonista, mas sim pelos familiares do mesmo. Por esse motivo, neste tipo de situação são os familiares dessa pessoa a contactar o professional organizer e nunca a pessoa em si. Este contexto de acumulação sem limites pertence a um quadro sintomático compatível com uma doença do foro psiquiátrico tal como a esquizofrenia, a doença bipolar ou a obsessivo-compulsão.

Neste casos em que a relação com os objectos está distorcida e a acumulação constitui um mecanismo de coping, não é de todo aconselhável optar por estratégias de destralhamento em que é feita uma purga da tralha de uma só vez. Isso constituiria um dano para a pessoa tão grave que poderia dar origem a graves ataques de pânico e outras situações dignas de alarme.

Por outro lado o destralhamento, quando desmedido, já causou alguns estragos mesmo em contexto saudáveis de desorganização temporária. Os mecanismos de coping existem também em situações exteriores a quadros clínicos, embora sejam mais subtis. Nestes casos, é bastante comum que após um acto liberatório de “purga” em casa, a pessoa protagonista da purga sinta-se no direito e opte por cair no erro de comprar coisas novas, levada pela ilusão do merecimento imediato. Esse momento de compra é por si só um mecanismo de coping que serve a compensar pela sensação de perda quando se opta por uma estratégia de destralhamento sem o devido devir cognitivo que tem de tomar lugar, algo de muito comum. E o consumismo desenfreado em que se cai a seguir é justamente o que deu origem à tralha de que nos acabamos de libertar. Cria-se um ciclo. Algo a evitar se queremos optar por um estilo de vida minimalista.

Daí que seja necessário adoptar esta táctica de destralhamento sem cair em tendências, modas ou exageros por legítimo entusiasmo após a leitura deste livro, optando por enquadrá-la num esquema de organização diário que permita dar espaço à evolução cognitiva que acompanha este processo, evitando desnecessários mecanismos de coping.

Em vez do destralhamento desenfreado e em curto espaço de tempo prefiro propôr outra táctica japonesa originária dos EUA e que muito fez pelas indústrias nipónicas: a filosofia da melhoria contínua ou Kaizen.

Opte sim pelo destralhamento mas faça um esquema em que este seja uma peça da engrenagem e faça planos e rotinas para o que vem a seguir. Entre em cada divisão da casa e pense no que pode ser melhorado para que funcione melhor. Melhore e volte a melhorar. Veja cada divisão como parte de um processo fabril até ao final da fabricação do produto. E sobretudo questione. Questione sempre e muito. Faça perguntas a si mesmo sobre a sua relação com os objectos. Perca tempo a perguntar-se o porquê do seu particular apego às coisas. Vá ao fundo da questão e não deixe nenhum “se” em aberto. E pouco a pouco, sem pressas, vá preparando a sua mente para uma vida a longo prazo em que o destralhamento seja uma prática quase automática. Adeque-o às suas praxias no momento das compras. Adopte-o sempre que fizer de comer. Transforme e reinvente-se para que comece a viver em função de si e dos outros e do “ser” em vez do “ter”.

O verdadeiro minimalismo não é um momento, não é uma estratégia, nem tão pouco deve ser considerado um meio. Deve ser sempre um fim.

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About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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