A Dieta da Tralha

A época balnear está a começar e o verão anda à espreita mas a dieta de que vos venho falar é diferente. É a nova Dieta da Tralha e o objectivo é emagrecer as nossas casas e, ao mesmo tempo, esvaziar as nossas mentes da tralha mental que se tem acumulado.

Num mundo cada vez mais consumista, conseguir sobreviver a esta onda de alienação mental é obra. Acabamos vítimas de um sistema que nos impõe a compra, cada vez mais, e que faz de nós meras marionetas, sem capacidade de resposta e pensamento crítico, completamente apáticos perante uma realidade em que só existimos se comprarmos e se enchermos a casa de tralha que não usamos, o telemóvel de aplicações que não precisamos e a cabeça (e o corpo!) de vários smoke screens que nos impedem de reagir e de tomar as decisões que nos libertam.

Já muita gente ouviu falar na metodologia KonMari divulgada pela japonesa Marie Kondo pelos quatro cantos do mundo, uma filosofia que faz a apologia do destralhamento compulsivo e radical que promete uma vida descomplicada, livre de tralha e minimalista. Muitas pessoas têm aderido de forma frenética a esta metodologia, mas poucas se têm apercebido dos efeitos nem sempre vantajosos que essa adesão poderá trazer.

O acto de destralhar grandes quantidades de bens poderá ter efeitos benéficos e terapêuticos se a pessoa estiver preparada para tal e se o destralhamento for algo que faça parte do seu dia-a-dia e não seja só um acto do momento. Sem esta preparação de base, esse destralhar sem limites poderá activar um mecanismo de coping como poderá ser o binge-shopping ou a compra desenfreada, para colmatar o sentimento de perda despertado por esse destralhar sem peso nem medida. Como numa dieta, não devemos cair em extremos e há que habituar o organismo pouco a pouco a uma atitude consciente de libertação do que está a mais.

O meu conceito assemelha-se, por esse motivo, a uma dieta, ou, se quisermos, um regime. Consiste numa atitude mais do que um momento. Não se trata só de escolher uma determinada data no nosso calendário e destralhar uma categoria de objectos ou uma das divisões da nossa casa ou do nosso escritório.

A Dieta da Tralha pretende ser uma filosofia, se quisermos, uma escolha de vida em que o destralhar ocorre naturalmente, organicamente, no nosso dia-a-dia sem data fixa.

Acontece sempre que decidimos optar pela não compra, porque, afinal de contas, até nem precisamos. Ocorre sempre que abrimos o armário e instintivamente retiramos desse armário, uma peça de roupa, simplesmente porque já não faz falta. É uma atitude voluntária de desapego em que o consumo de coisas é substituído pela prática saudável da convivência humana.

E como fazer a Dieta da Tralha? Deixo-vos alguns passos que poderão ajudar a integrar esta Dieta no seu dia-a-dia:

DESTRALHE TODOS OS DIAS

Ao habituarmos a nossa mente a tomar decisões simples como poderão ser as que nos levam a retirar o que está a mais, estamos a programar o nosso cérebro a adoptar esse comportamento como rotineiro e a construir uma base comportamental que nos levará a tomar essas decisões de forma cada vez mais despegada, mais livre e de forma mais automática.

Sempre que entrar numa divisão, olhe em sua volta e analise. Não precisa de muito tempo, tenho a certeza que em poucos minutos, segundos talvez, consegue encontrar algo que não se enquadra no seu uso diário. Depois é muito simples. Retire esse intruso e dê-lhe um novo destino: Reciclar, Doar, Vender.

Ao fazer esta prática todos os dias irá garantir duas coisas: um maior desapego e tomada de decisão; uma casa com menos tralha.

FAÇA AS 8 PERGUNTAS AOS SEUS BENS

Sempre que se deparar com um objecto que desafie e ponha em causa a sua tomada de decisão, coloque-o em tribunal e faça-lhe as seguintes perguntas:

-Gosto de ti? – não adianta manter um objecto em casa de que não se goste e que não se encaixa no nosso perfil estético, sobretudo se não for útil ou não nos trouxer qualquer mais-valia;

-Usei-te nos últimos 6 meses? – pode ter sido usado durante um longo período de tempo, mas se entretanto, por mudanças de hábitos ou rotinas deixar de o usar e já não servir, não vale a pena mantê-lo debaixo do seu tecto;

-Estou a guardar-te por outros motivos? – foi uma prenda indesejada, resultado de uma herança que se viu obrigada/o a aceitar, lembra-lhe tempos idos ou questões não resolvidas? Se o único propósito da sua existência é servir de mero reflexo de algo que já se encontra no seu hard drive natural (a sua mente), não há nenhuma razão lógica para a prolongar;

-Podes ser substituído? – tem alguma coisa em casa que faça as mesmas funções e de forma mais ou igualmente eficaz? Compensa-o comprar uma nova versão, mais nova, mais funcional?

-Estás em bom estado? – pode ser um objecto útil, mas se o seu estado presente não o deixa cumprir o propósito para o qual foi adquirido, mais vale então pensar em substituir;

-És eficaz? – esta pergunta prende-se com a utilidade do objecto em si: se a sua existência em sua casa for realmente uma mais-valia e cumprir os objectivos para os quais foi comprado, muito bem, senão fora;

-Cabes neste espaço? – muitas vezes o espaço para o que temos é exíguo e tem de ser reavaliada a logística do local: tente arranjar espaço para o objecto em questão, mas primeiro certifique-se de que vale mesmo a pensa esse esforço;

-Voltaria a comprar-te? – esta pergunta é essencial para perceber definitivamente se o objecto pertence ou não ao seu espaço de casa e se a resposta for negativa, está na altura de avaliar a sério o seu propósito.

CONFIGURE UM ESPAÇO OUT

Para poder cumprir a dieta à risca, convém arranjar um espaço em sua casa dedicado ao armazém temporário do que decidiu descartar. Claro que este armazém tem de ficar numa zona da sua casa que não esteja implicado na rotina diária, mas que possa ser acessível e prático.

Neste espaço poderá colocar alguns sacos devidamente etiquetados que ajudarão a separar devidamente o que decidiu retirar de sua casa. As categorias ficarão ao seu critério, mas há duas opções: poderá dividir por tipo de objecto (ROUPAS, SAPATOS, BRINQUEDOS, etc); em alternativa poderá dividir por acções a tomar (RECICLAR, VENDER, DOAR).

Lembre-se que este armazém é temporário, portanto marque um dia por semana ou por mês em que irá tratar de reencaminhar os objectos seleccionados para os destinos escolhidos. Convém ter uma lista de instituições que contactou atempadamente para saber exactamente o que precisam e quando irá trazer o que combinou.

Se não tem espaço em casa para fazer de espaço OUT, arranje um simples saco com a etiqueta OUT e coloque num sítio de saída de sua casa (poderá ser um armário da entrada ou a garagem, desde que esteja visível e não demasiado escondido.

OPTE PELA NÃO COMPRA

De nada vale livrar a sua casa de tralha se pensa trazer novas tralhas para dentro da mesma. Ficam aqui algumas sugestões para evitar este passo em falso:

-Faça SEMPRE listas de compras e reveja-as 3 vezes;

-Separe as compras no tapete da caixa por ESSENCIAL e PODE ESPERAR;

-Pondere sempre as suas compras e pratique, quando possível, a NÃO COMPRA;

-Evite trazer nova tralha para casa (faça a pergunta dos 6 meses);

-Não compre prendas só porque sim (ofereça prendas úteis e desejadas);

-Não se deixe tentar pelos saldos.

CONTACTE UM PROFISSIONAL

Se realmente tem dificuldade em fazer esta dieta, pode sempre contactar um professional organizer que irá ajudar a tomar os primeiros passos para que possa enveredar por uma vida menos consumista e mais livre de tralha!

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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