8 Dicas para uma Criança Feliz e…. Organizada!

Dá para acreditar? Estamos de novo na altura do Natal! Entretanto andámos todos a um ritmo alucinante, sem grande tempo para parar, nem para respirar. Se há uns anos este discurso nos parecia exagerado, a realidade é que a palavra pausa assume cada vez mais um revestimento de artigo de luxo, muito almejada, mas ao mesmo tempo olhada com desconfiança, porque afinal de contas “parar é morrer”.

Se este tipo de vida ao fim de algum tempo nos causa problemas, já pensou no que poderá estar a fazer ao seu filho? Falamos e fala-se cada vez mais no que a nossa sociedade, aquela comunidade que nós todos ajudamos a criar, pede às crianças, muito mais do que nos pedia a nós, quando por lá passamos. Ele é TPCs, actividades extra-curriculares, aulas extra disto e daquilo, mais o desporto, o coro, o teatro, etc etc.

Temos crianças mais stressadas, com menos tempo, mais agarradas à televisão, mais assoberbadas e ao mesmo tempo, mais apáticas, mais susceptíveis, mais influenciáveis.

O que é que nós como pais podemos fazer para conseguir educar uma criança mais feliz e menos ansiosa? Muito poderá depender dos desafios que lhe são pedidos pela sua vida escolar e, muitas vezes, há determinados factores que nos impedem de tomar as melhores decisões por eles, mas esse é um dos muitos aspectos que regulam o seu dia-a-dia. Então afinal o que podemos nós fazer?

Ficam aqui algumas (pequenas) sugestões:
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Tenha conversas no carro

Quer trabalhe part-time, full-time, em casa, fora de casa, efectivamente ser-se pai é uma tarefa que exige muito esforço, especialmente ao final do dia.

Daí que há que aproveitar todas as oportunidades que nos apareçam para poder estar com eles e muitas vezes interpretamos de forma incorrecta o que isso quer dizer. Tendemos a complicar o que normalmente chamamos de “tempo de qualidade”. Para os nossos filhos, por vezes, uma simples conversa de 10, 15, 20 minutos poderá ser já um grande passo.

Se e quando estiver nas famosas viagens de casa-escola-casa, aproveite para falarem sobre a escola, sobre os amigos, sobre os TPCs, os testes, as paixões secretas. Aqui a palavra de ordem é ouvir, sem dúvida nenhuma. E, pouco a pouco, quando lhe é dada a oportunidade, dar os 2 cêntimos, aconselhar, orientar, conduzir.

 E quando der por ela, esse tal tempo de qualidade aconteceu e ficou a saber um pouco mais do seu filho.

Este tipo de conversa traz imensos benefícios:

-Ajudam a criar laços pais-filhos;
-Levam-nos a conhecer e compreender um pouco mais sobre o que se passou na escola;
-Fazem o ponto da situação relativamente à sua situação social;
-Revelam, por vezes, algumas situações de bullying que possam estar a ter lugar;
-Fazem com o seu filho se sinta ouvido e considerado;

e não menos importante:

-Ajudam a organizar as ideias.

Está mais do que provado que verbalizar as nossas ideias, os nossos pensamentos e os eventos passados, presentes e futuros ajudam a colocar alguma ordem naquela confusão familiar que nos caracteriza ao final de um dia de trabalho. Se isso é verdade para nós, também o é para eles.

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Oriente, não substitua

Se queremos criar uma mente autónoma, capaz de lidar com situações de stress e de encontrar soluções, há que controlar a nossa vontade de poupar aos nossos filhos as frustrações típicas da sua idade.

Se o seu filho chega a casa com os TPCs do costume (infelizmente ainda é política de muitas escolas), é responsabilidade dele fazê-los e não sua. Se com filhos mais pequenos deverá existir uma orientação mais presente, com os filhos mais velhos esta deverá consistir numa verificação, num pequeno check-up diário, deixando em aberto a possibilidade de maior ajuda, caso seja necessário, pontualmente.

 Deixe-o tomar decisões, começando com áreas de menos importância.

Com miúdos mais pequenos, podemos deixá-los escolher a matéria que irão estudar primeiro. Com mais idade e havendo essa possibilidade (TPCs que são marcados para toda semana), poderão escolher em conjunto como programar a semana e pouco a pouco ir delegando essa tarefa só para ele.

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Deixe-o cometer erros

E, sim ele vai falhar por vezes nessa programação, mas é crucial deixá-lo cometer esses erros. É através deles que se vai fazendo a aprendizagem e se vai criando o sentido de responsabilidade necessário para se crescer. Afinal de contas, se for sempre a mãe ou o pai a tomar essas pequenas decisões, sempre que houver algum erro de cálculo, esse erro será sempre seu e não dele.

“Tentativa e erro, tentativa e erro”, tem sido o mantra que repito aos meus filhos, todos os dias, sempre que se vêem em situações em que uma determinada tomada de decisão correu menos bem. E pouco a pouco, vão entendendo o erro como uma oportunidade e não como obstáculo.

Assim se vencem as frustrações e se ensina a organização, pouco a pouco, porque organizar é saber tomar decisões.

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Implemente os Kanban Cards para organizar o material

Nem tudo o que está ligado à organização tem de ser enfadonho e chato. O sistema Kanban é perfeito para ensinar conceitos mais rudimentares de organização e de gestão de inventário. Característica mais importante: a autonomia, mais uma vez.

Estes cartões podem ser utilizados pelos seus filhos, sem problemas, com algumas regras básicas que se assemelham muito a um jogo.

Para mais informações: O uso de Kanban na Organização do Material Escolar

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Crie um equilíbrio entre tempo de televisão, tempo de leitura e tempo de jogo

Considere que tem que haver um equilíbrio são e estável em que o seu filho possa usufruir o melhor dos vários mundos que o rodeiam, sejam eles o mundo tecnológico, o mundo da criatividade e o mundo da fantasia, da imaginação e da leitura. São várias áreas do seu cérebro que estamos a desenvolver, contando com a parte cognitiva, social e emocional.

Mas para que esse equilíbrio exista tem que haver um acordo: se em idades mais precoces, esse equilíbrio é estabelecido pelos pais, sem espaço para questões, na idade da pré-adolescência e adolescência em que a tomada de decisão cresce e o pensamento crítico começa a ganhar volume (esperemos), há que o incluir nessas decisões, sem deixar de estabelecer regras.

Mais facilmente ele irá respeitar um plano pré-estabelecido se for também uma sua criatura. E se eventualmente houver lugar a um desacordo entre partes, ponha à experiência as sugestões dele, deixe-o mais uma vez ser dono das suas responsabilidade e decisões e, se for preciso, deixe-o errar. Esta é uma área fértil para o ramo de organização porque se trata de saber gerir o tempo e, neste ramo particular da organização, só se consegue chegar a um equilíbrio calibrando e errando.

Vá monitorizando e vá constatando: “Estás há mais uma hora a ver televisão, não preferes fazer uma pausa?” “Vou fazer um bolo na cozinha, queres ajudar-me?” “E que tal se formos jogar aquele jogo?”

Tenho uma filha de 12 anos e vivencio todos os dias este equilíbrio com ela. Tento respeitar o espaço social e cognitivo que ela precisa, com os limites necessários (para já redes sociais só a partir dos 13 anos, como manda a lei), mas vou orientando, lembrando-a do que tem a fazer a seguir ou sugerindo alternativas. Constato que sempre que lhe explico a 100% o porquê das minhas sugestões, estas são aceites.

Por exemplo, sempre que acho que ela está há demasiado tempo no computador, vou referindo o efeito que o monitor tem na nossa visão e que ao final do dia há que deixar lugar ao descanso, tão necessário.

Regra geral, ela aceita bem a minha sugestão, até ao ponto em que, por iniciativa dela, deixa o computador e pega num livro.

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Estabeleça planos de limpeza em casa ao fim-de-semana

Quer criar um adulto responsável e capaz de se “virar sozinho”? Comece no mais básico, mesmo com crianças pequenas: limpezas.

Por incrível que pareça, é uma das actividades que peço aos meus filhos e que consegue ainda hoje ter grande adesão. Há que saber atribuir uma tarefa que eles saibam fazer, sem que isso possa pôr em causa a sua integridade física, mas existe um número infinito de pequenas tarefas que eles podem (e devem!) fazer.

Estas são algumas dessas actividades:

-aspirar o chão;
-lavar os pratos;
-colocar os pratos na máquina;
-limpar vidros;
-limpar o pó;
-passar a esfregona;
-limpar o carro;
-pôr e tirar a mesa;
-tirar a loiça da máquina;
-dar de comer e limpar os porquinhos da Índia. ….

O porquê de haver grande adesão a estas actividades, sobretudo pela miudagem mais nova? Lembre-se que, infelizmente e na maioria das escolas, o dia-a-dia semanal deles é passado no âmbito da classe em que lhes é pedido para estarem sentados numa cadeira por quase 2 horas seguidas, em média, com pouco tempo de intervalo para eles espairecerem. Havendo uma mudança no paradigma, neste caso, uma actividade física em que eles têm que lidar com aparelhos como o aspirador ou a esfregona e mexerem-se, é bem-vinda porque completamente diferente ao que estão habituados à semana. E com jeitinho e imaginação, pode ser transformada em jogo.

A palavra-chave aqui, mais uma vez, é autonomia: deixe-os fazer à maneira deles, sem antes lhes deixar algumas dicas. Se não ficar perfeito, não se aflija e, sobretudo, reforce positivamente. Dê a entender o que significa para si essa ajuda que eles prestaram. Faça-os sentir parte de uma comunidade, a primeira, tão importante, que é a família. Lembre-se que é o primeiro contacto que eles têm com essa realidade e que irá moldar a forma como eles irão ver futuras comunidades às quais pertencerem.

E, não menos importante, deixe-os explorar métodos diferentes e decidir quem vai fazer o quê e quando. Mais uma vez, a palavra organização vem ao de cima e este é mais um momento em que a mesma faz imenso sentido.

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O exemplo começa em casa

Como pais temos tendência a não dar tanto peso ao que fazemos e achamos sempre que o que dizemos “entra a cem, sai a duzentos”. Na verdade, as nossas palavras e acções têm um impacto bem mais profundo do que nós conseguimos aperceber.

As nossas atitudes, as nossas opiniões, aquilo que nós consideramos factos irão tornar-se numa verdade absoluta para os nossos filhos. Por esse motivo, tenha sempre especial atenção, faça um exame de consciência e pergunte-se “tenho sido bem sucedido como exemplo a seguir?”. Reveja as suas acções. Reitere as boas, aquelas que produzem boas atitudes e boas posturas perante a vida. Elimine tudo o que está mais, tudo o que poderá ter consequências nefastas.

Assim se gritar, eles também irão gritar, mas se for generoso, eles também o serão.

Se passar o seu dia-a-dia ansioso e irritado, eles irão espelhar essa ânsia. Se for um pai feliz, eles irão reverberar essa felicidade, partilhá-la.

 Claro que não há pais nem mães infalíveis. É preciso que o seu filho entenda esse conceito. Os pais também erram. Os pais também têm maus momentos. Mas tudo passa e o importante é saber que o caminho se faz para a frente.

E a organização? Esta palavrinha mágica também entra nessa equação.

Assim como em todas as outras atitudes, se for uma pessoa organizada, os seus filhos poderão seguir esses mesmos passos. Faça listas de tarefas e mostre-as. Planeie o seu dia-a-dia e partilhe essa experiência com eles. E faça por sair sempre a tempo de casa e chegar sempre a tempo para os ir buscar, que é uma excelente forma de lhes ensinar a gestão de tempo. Nunca poderá pedir-lhes que sair a horas para a escola se também não souber cumprir horários, pois não?

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Muito reforço positivo, sempre

Já falei aqui várias vezes na autonomia e agora cabe-me falar sobre o reforço positivo.

Sim, sei que nem sempre é fácil conseguir evitar aquela crítica mais severa e que, por vezes, também acabamos por passar um bocado do limite. Acontece a todos. Por vezes essa crítica é necessária e essencial. Por vezes, tem menos utilidade. O equilíbrio não é fácil de atingir e qualquer pai se identifica com essa situação, esse constante conflito entre o que chamaríamos de forma mais cómica o “polícia bom” e o “polícia mau”.

Temos de procurar sempre ser assertivos, não só com os outros, mas, sobretudo, com os nossos filhos: sempre que houver uma crítica a fazer, pequena ou grande, opte por um discurso objectivo, o tipo de discurso que não deixa em suspenso a pergunta “o que fazer a seguir”.

Nesse discurso deve fazer parte, sempre, o reforço positivo, a ideia que que o erro faz parte e que há sempre lugar a fazer de novo, a tentar de novo. Mais uma vez, “Tentativa e Erro”. Dê-lhe a entender que sabe que ele vai fazer melhor da próxima vez e, se isso não acontecer, tem sempre a vez a seguir. Explique-lhe que o nosso melhor muda todos os dias e que nem sempre o que nós chamamos “100%” produz os mesmos resultados.

Opte por elogiar o esforço dele e evite expressões como “és tão inteligente”. Empregue expressões do tipo “quando te esforças, consegues fazer coisas maravilhosas”.

E nunca se esqueça de elogiar todas as situações em que um obstáculo considerável foi ultrapassado (pode não o ser para si mas é com certeza para ele). Não só está contribuir para um aumento considerável da sua auto-estima, como está a criar um adulto que toma responsabilidade pelos seus erros e também sabe aceitar os seus sucessos.

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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