Regresso às Aulas de A a Z – Parte 1

Regresso às aulas: De volta!

E não é que estamos todos outra vez nesta roda viva? Já? Mas se ainda agora tinha acabado de fazer e desfazer malas? Ahn?

Sim, estamos de volta e, sim, este mês não é um mês fácil, para ninguém. O paradigma mudou: os horários voltaram outra vez a impôr-se, a azáfama de sempre parece acordar-nos de uma letargia a que já estávamos habituados e a nossa cabeça ainda anda algures pela praia à procura do melhor poiso para o guarda-sol.

Quem é pai sabe que tem que lidar não só com as suas rotinas do trabalho, mas também com as rotinas dos filhos, inevitavelmente. É um teste às nossas forças e capacidade de encaixe. Por este motivo, considero que devíamos todos colocar nos nossos currículos mais uma competência, a de “gestor de projectos”, só por causa deste mês. De todas as formas, é um momento muito positivo: é o início de uma nova aventura para a criançada (quem sabe que desafios os esperam ao fundo da esquina da aprendizagem?) e o renovar-se de uma época, com novas oportunidades à espreita. É ou não é?

Para vos dar algum ânimo e organizar um pouco esse caos tão setembrino, decidi então fazer um pequeno glossário do regresso às aulas e apresentar as minhas sugestões para cada uma das palavras. Estamos prontos? Vamos a isso!

A de ADAPTAÇÃO

Se este período é complicadote para ti, imagina para o teu filho, o que deve ser! Voltar a deitar mais cedo, voltar a acordar muito mais cedo, andar de mochila às costas com muito mais peso do que deveria ter, enfrentar novos colegas, novos professores, novas matérias. Daí que tens de o acompanhar e dar-lhe a orientação que precisa, sobretudo neste primeiro mês.

Sim, é provável que para algumas crianças esta passagem seja mais fácil mas os desafios nunca são os mesmos para todas nem sentidos da mesma forma. Se o teu filho mais novo até se está a dar muito bem, aceita que o teu filho mais velho possa estar a ter dificuldades inerentes ao desafio que lhe está a ser proposto e inerentes à sua personalidade. Orienta-o e mostra-lhe que vai haver dias bons e dias menos bons mas que tudo passa e que ele vai conseguir.

B de BOM EXEMPLO

Óbvio que nunca poderemos impôr novos horários e novas regras se não começarmos por nós. Deve ser um esforço conjunto. Ora, se de manhã somos os últimos a tomar o pequeno-almoço, se chegamos atrasados para os ir buscar à escola ao final do dia ou se passamos horas colados ao monitor do telemóvel ou do portátil a ver as últimas da Madonna a passear-se pelas ruas de Lisboa, o que é que isso lhes comunica?

Dou-vos um exemplo que cai aqui com uma luva: as vezes em que chegamos mais cedo à escola de manhã são todas aquelas em que me levanto primeiro, em que me arranjo primeiro e estou pronta bem mais cedo do que eles. Porquê? Porque já não há desculpas para atrasar: “se a mãe consegue, nós também conseguimos”.

C de COLEGAS

É sempre um assunto delicado não é? O amiguinho de longa data ficou colocado noutra turma ou já não quer ser a companhia número 1 do nosso filho quando voltou das férias. Isto é sobretudo verdade para os mais novos em que tudo muda em segundos, mas as desavenças e os desencontros entre amigos acontecem um pouco por todas as idades e não devemos nunca menosprezá-las. Acompanha de perto as companhias dos teus filhos. Se forem convidados para festas ou para passar uma tarde em casa de A, B ou C tenta conhecer os pais e perceber se têm as mesmas prioridades e formas de educar.

Quanto a convites lá para casa, impõe alguns limites: festas de pijama e tardes de festa só em altura de férias (podes sempre propor-lhes as férias intercalares em Outubro).

Mais importante ainda: atenção a todas as situações de bullying que possam acontecer. Nunca partas do princípio que eles te vão contar tudo o que se passa, por isso mantém-te sempre perto da situação e mostra-te disponível, sem julgamentos nem pré-juízos. E não te esqueças de ter os contactos dos professores bem à mão.

D de DORMIR

Tão, mas tão importante e é tão menosprezado por todos nós! Falo por mim: quantas horas estive eu em frente ao computador até altas horas da noite com a ilusão de poder controlar o tempo e a pretensão de um semi-deus com a capacidade de resistir aos braços tentadores de Morfeu?

Quantas vezes facilitamos, deixamos que os nossos filhos vão dormir mais tarde, porque não nos obedecem ou porque queremos ficar com eles só mais um bocadinho? E com isto estamos a deitar por terra um dos alicerces fundamentais do estudo, da aprendizagem e da saúde mental. Cria rotinas e reforça os hábitos do sono, por ti e para eles. Insiste que há um momento para se dormir e que é crucial. Explica que só assim conseguem ser bons alunos, bons amigos, bons filhos e estarem bem consigo mesmos.

Não vou aqui enfiar tabelas com horas de sono por idade. Há muito disso no Google. Cada criança e cada adulto é diferente e têm necessidades diferentes (embora ande sempre à volta, mais ou menos, do mesmo número de horas de sono). Encontrem o vosso equilíbrio como família e respeitem a santidade do vosso corpo e mente, dormindo as horas necessárias.

E de EXTRA-CURRICULAR

Poderia escrever um artigo inteiro sobre esta palavra que resume na perfeição as nossas expectativas. Isto porquê? Porque as actividades extra-curriculares trazem em si a promessa de uma nova competência para os nossos filhos que irá criar violinistas excelsos, ginastas de primeira categoria ou futebolistas bem promissores. Entretanto esquecemos que se calhar o que eles querem é brincar. Não me interpretem mal: compreendo o fascínio das actividades fora da escola, trazem uma componente artística/desportiva efectiva que nem sempre a escola consegue oferecer. Aqui a palavra chave é o equilíbrio: nem de mais nem de menos!

Escolham juntos actividades que eles gostem, que possam trazer mais-valias concretas e que não sobrecarreguem o horário deles que, muitas vezes, é uma sobrecarga só. Temos crianças por este Portugal fora que fazem mais horas semanais do que um funcionário público. Tem isto em conta quando os inscreveres. Lembra-te também destes aspectos:

  • orçamento mensal para as actividades?
  • quem vai levar e trazer?
  • fica perto ou longe da escola?
  • duração?
  • precisa de vestuário/acessórios comprados?
  • tira tempo para eventuais tpcs?
  • qual vai ser o benefício final?

F de FALAR

Se a educação dos teus filhos fosse uma casa e tu fosses o empreiteiro, a comunicação seria o cimento que mantém as paredes em pé. Portanto falem. Aproveitem as viagens de carro para se actualizarem, para saberem uns dos outros. “Como correu a escola?” “O que aprendeste de novo?” “O que comeste ao almoço?” podem ser algumas perguntas que dão início ao “relato” que eles te vão contar do seu dia. Pouco a pouco vais-te inteirando do que fizeram, como reagiram às várias situações, com quem se deram bem, com quem discutiram. Crias vínculo e conheces mais um pouco do seu dia-a-dia.

Mas não fiques por aqui: partilha também um pouco do teu dia, expõe algumas das tuas preocupações e, se eles já forem mais crescidos, pede-lhes algumas opiniões e sugestões sobre situações tuas ou então propõe alguns temas de conversa mais crescida.

G de GUARDA-ROUPA

Muitas vezes entramos neste mês com a noção que vamos ter de gastar horrores em roupinhas para a escola para além dos materiais. O meu conselho? Não percas demasiado tempo com esta parte e arranja soluções práticas. Sim, é verdade, eles crescem muito rápido (é do fermento!). E as roupas deixam de servir num instante. Também é verdade que irão precisar de roupa mais quente e vão-se sujar bastante na escola. Tens toda a razão. No entanto, considera o seguinte:

  • muitos dias de escola serão dedicados à ginástica;
  • muitas escolas optam pelo uniforme (portanto o que levarem por baixo é irrelevante);
  • as roupas que levarem para a escola vão ter o mesmo destino dos brinquedos de Andy no filme Toy Story 3 (à parte a cena da fornalha);
  • vão perder todos os casacos e camisolas que lhes deres para vestir de manhã (TODOS);
  • vão chegar da escola com roupas de outros meninos;
  • se forem eles a escolher as roupas de manhã (como é justo que seja), vão usar sempre (SEMPRE) o mesmo conjunto vezes sem conta, menosprezando o resto do armário (os meus filhos devem ser minimalistas…).

Portanto não gastes muito dinheiro, não percas muito tempo e junta só o estritamente essencial. Opta também por um sistema de troca de roupas usadas com vizinhos, amigos e familiares. É o que faço e há vários anos que não lhes compro roupa nenhuma. A sério.

H de HORÁRIO

Já falei aqui na importância das rotinas e o horário é a palavra que vem logo a seguir. Estabelece um horário desde o início, pensa-o bem e não o mudes radicalmente à primeira coisa que aconteça. É natural que haja flutuações e imprevistos, até porque a perfeição não existe e se existisse viria coberta de chocolate preto. No entanto, se disseres aos teus filhos que têm de ir tomar banho às 19:00, é às 19:00 que devem ir. Se têm de ir dormir às 21:30, é às 21:30 que devem ir. Almoços e jantares também têm hora marcada e quem não cumprir assumirá essa responsabilidade. Podes sempre impôr um pequeno trabalho comunitário para os mais faltosos (lava a loiça, varrer o chão) ou então retirar alguns privilégios (não jogar na consola ou não ver televisão).

De uma forma ou de outra o horário é o bater do coração do vosso dia-a-dia. A bússola do vosso núcleo familiar. Não o descurem e trabalhem em conjunto para o fazer funcionar.

I de IMPORTÂNCIA

Adultos e crianças não atribuem a mesma importância às mesmas coisas. O que para eles pode ser catastrófico, para nós pode ser um passeio. Igualmente, o que para nós pode ser uma prioridade para eles pode ser um ponto interrogativo, como se vivêssemos perpetuamente em dois planetas diferentes. Daí que tenha de haver uma ponte de compreensão entre estes dois planetas tão diferentes, um esforço comum para que cada um aprecie e possa entender o que o outro precisa. E esse esforço começa connosco, os adultos. De que outra forma podemos pedir isso, a eles que ainda não o sabem fazer?

Neste período, estamos em pleno olho do furacão. Mas é aí que a nossa visão melhora: aproveita para estar mais permeável àquilo que são os seus pontos de vista. Dá-lhe espaço para se explicar. Mais facilmente poderás então entrar no mesmo registo e comunicar-lhe, explicando o que tu achas que possa ser essencial nesta fase, começando na organização dos cadernos, materiais até ao cumprimento dos compromissos que tem com a escola e os professores.

Queres saber como é que este artigo continua? Então vê aqui!

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

Leave A Comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.