O que eu apreendi num Mês sem Smartphone!

Sim, leste bem, passei um mês sem Smartphone!

Na verdade, tudo começou com uma história bem engraçada. Bem, ok, não é engraçada mas tem o seu quê de cómico. Ok, pronto, não é propriamente cómico. É a vulgaríssima história de como eu parti o écran do meu iPhone 4S (Sim, ainda existe. Sim, ainda funciona.). Pela terceira vez. Pois, eu sei. Desastrada como tudo.

Parti o écran do meu iPhone no longínquo Agosto deste ano, nas ainda mais longínquas (snif, snif) montanhas dos Alpes Lígures onde passei as minhas férias. Estava eu muito tranquila a subir rio acima e toca a poisar o realíssimo traseiro num pedregulho para encontrar o equilíbrio necessário, não fosse eu cair pela ribanceira abaixo. Pormenor importante: o telemóvel estava no bolso de trás. Mal tiro o bicho para poder tirar uma fotografia à paisagem e de imediato deparo-me com a expectativa de dias e dias pela frente a ter que ler o écran pelas entrelinhas. Literalmente. Estava todo escacado.

O que fazer? Para além de tentar aguentar a situação por tempo indefinido? Desistir, levar o dito cujo a uma loja a reparar, depois de vários dias à procura do melhor orçamento. E esperar que saísse o iPhone 8 e X porque assim como assim conseguem-se preços mais baixos. Coisa que resultou às mil maravilhas.

Momento de rebelião

Entretanto, o que se passou? Deixo o apêndice tecnológico a arranjar e começo a sonhar de olhos abertos com um novo modelo. Novo, como quem diz. Mais particularmente um iPhone 6S (sim, sou um pouco irracionalmente fanática pela “maçã”), com tudo o que isso implica. E aí começaram os meus problemas, sobretudo de consciência:

  • porque ia gastar dinheiro que é coisa que me arrelia um bocado;
  • porque não queria contribuir para o lixo electrónico;
  • porque não queria ter de perder tempo a habituar-me a modelos diferentes;
  • porque não sabia como havia de me decidir (e se o que comprar não for bom?).

Farta de tanto nervosismo, já a reconhecer a famosa ansiedade pré-compra (a tal “scimmia” de que vos falei no artigo anterior) e para evitar sentir-me manipulada pela mesma, optei por me rebelar completamente, adiar a minha decisão com um valente “chega!” e optar por andar durante um mês com um telemóvel de várias gerações atrás no bolso. Daqueles com um toque capaz de acordar um morto e uma bateria que dura milénios. Mais ou menos 3 dias, vá lá.

Acabei também por decidir transformar isto numa experiência. Num insight. E depois escrever um artigo de meio metro a falar sobre isso. Tem sido uma experiência interessante. Nem positiva, nem negativa. Interessante. E que passo a documentar de seguida.

Pequeno e perdido na carteira

Habituei-me de tal forma a formatos maiores que agora perco meia-hora à procura do minorca dentro da carteira. Não porque tenha uma carteira desarrumada. Nada disso. É mesmo porque o gajo é mesmo, mesmo pequeno. Digno de valentes impropérios e de grandes reviravoltas na carteira.

Ponto positivo: a minha carteira nunca esteve tão limpa e desempoeirada.

Já consigo ouvir o toque!

Realmente é um ponto mesmo, mesmo a favor deste tipo de tecnologias do milénio passado. O toque é alto e ouve-se a grande distância. Talvez porque eu tivesse aquela mania de ter toques todos xpto no meu iPhone – como por exemplo, a sequência de sons do filme “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” – mas o facto é que nunca o conseguia ouvir.

Ponto a favor? Parece-me que sim!

E agora o que é que eu faço quando estou parada no trânsito?

Ao início é mesmo desesperante: estamos para ali feitas parvas a olhar para o nada (para o semáforo, seu guarda, para o semáforo…) e começamos a sentir a familiar comichão no dedo. Quero fazer scroll a alguma coisa. Aos emails, ao Facebook, ao Whatsapp. Qualquer coisa. Nada disso. Com este telemóvel não há cá brincadeiras desse género. Fica-se ali parada e aguenta-se o sinal. À décima vez que isso acontece começamos a reparar que afinal até temos carros à nossa volta. E que agora até conduzimos com mais segurança. Coisa gira.

A única coisa menos gira é atender chamadas no carro. Sem ter a gerigonça ligada por bluetooth ao carro, não há botão daqueles bem simples para carregar e responder a todas as chamadas sem grande esforço, sem perder muito tempo e em segurança. O que é uma valente seca. Mas como é que fazíamos antes??

Tudo muito mais rápido de manhã e sem écrans luminosos à noite

Eu não sei como vocês fazem de manhã, mas eu tinha o hábito menos bom de ler emails e actualizar-me sobre as últimas do Facebook logo de manhã, pelas 6, quando acordava. Resultado: quando dava por ela já tinha passado meia-hora! E eu a ter que me arranjar e levar a criançada toda à escola. Eu sei, é vergonhoso. Mas acho que não estou sozinha nestes hábitos, pois não?

Agora como a tecnologia avançadíssima do meu Sony Ericsson só me permite jogar no Snake (lembram-se??) como ponto alto da sua versatilidade anos 90, acabaram-se as perdas de tempo. De manhã e à noite.

“Até voltei a adormecer a fazer palavras cruzadas, vejam lá!”

Mensagens? Mas o que é isso?

Sem Whatsapp, sem Messenger, sem iMessenger, sem coisíssima nenhuma. Só o velho teclado DEF e mai nada. Escrevo mensagens? Não. Nem me atrevo. É que não tenho meia-hora para gastar a escrever uma única mensagem que seja. E outra meia-hora a corrigir os erros. Por isso, ando a ligar a toda a gente. Falo muito mais.

“Tudo menos escrever mensagens neste telemóvel. Assim como assim prefiro picar pedra.”

O que me vale é poder ligar-me ao computador para mandar bitaites ao maridão através do Messenger do Facebook. O problema é que muitas vezes tenho de esperar até chegar a casa ou encontrar um sítio com ligação wifi, o que é algo para o chato.

Nota importante: entretanto fui buscar o meu maltratado iPhone com écran novinho em folha e microfone cinco estrelas (sim, o micorfone dos videos já tinha ido à vida). Por curiosidade liguei-o, porque há que experimentar a ver se está tudo no sítio. Tinha 300 mensagens no Whatsapp. Devagarinho, saí da aplicação, desliguei o bicho e afastei-me assim uns 200 metros. Não. Decididamente Não.

Almoços e jantares sem tecnologias

Não é que eu tivesse esse hábito meio estranho de estar ao telemóvel durante o tempo todo de uma refeição mas, de vez em quando, sentia a dita comichão no dedo. Agora apercebo-me finalmente que há mais pessoas sentadas à mesa. Fantástico!

“Estou a exagerar de propósito para efeitos cómicos. É claro que sei que há mais pessoas sentadas à mesa. Isso explica porque é que tenho de limpar tudo no fim.”

Falando a sério: já pensaram nas horas que perdemos em frente a um monitor e que deixamos de ganhar em conversas com os nossos entes queridos? É impressionante mas desde que deixei o “apêndice” de lado apercebo-me muito mais do que nos transformamos pouco a pouco. Já não estamos assim tão longe desta realidade:

Estou mais atenta nas aulas da minha pós-graduação

Sim, porque já não pego na gerigonça de cada vez que me desconcentro nas minhas aulinhas de pós-graduação. Por exemplo, para ver as mensagens de Whatsapp.

“Continuo sem perceber grande coisa das aulas, mas pelo menos tenho reparado nuns pormenores fantásticos no tecto que nunca tinha visto antes.”

Ok, parte séria: parecendo que não, esta cena de ter sempre um écran disponível e à mão de semear põe em cima da mesa das nossas escolhas o famoso multi-tasking que primeiro era muito aclamado e apanágio do género feminino e agora é considerado um dos piores flagelos desta última década (decidam-se!). Até o diz este artigo cuja leitura aconselho. Efectivamente, desde que me libertei dessa opção, passei a estar mais atenta e concentrada, mais tranquila e menos cansada ao final do dia. Curioso não achas?

Mais desligada de tudo. Bom ou Mau?

Mais ou menos. Tenho sempre o meu portátil, portanto mantenho-me actualizada. Há que ver as últimas da Madonna em Lisboa. Ou mais gatinhos. Mas estou efectivamente mais desligada de tudo. Bom ou mau? Depende.

Se para nós o estar ligado quer dizer estarmos atentos às notícias importantes, estarmos em contacto com quem está distante e darmos continuidade a um networking profissional e pessoal feito com bom senso, o estar desligado pode não ser uma boa notícia. Porque nos subtrai desse mundo e ficamos a perder em contacto humano e oportunidades de negócio.

“Aquela cena que se costuma dizer que as redes sociais fazem. Aproximar as gentes.”

Se, no entanto, o estar ligado significa publicar videos de gatinhos, jogar nas aplicações do Facebook ou publicar o prato do dia da tasca da esquina no Instagram, então se calhar o estar desligado até pode ser uma coisa benéfica. Sobretudo para os outros.

As saudades que eu já tinha da minha câmarazinha

Podem tirar-me tudo. O Whatsapp, o Messenger, o Facebook, o Instagram, os Emails e até o Peak. Tudo bem. Não me tirem as fotos. Se é coisa que me tira do sério é o ter passado um mês sem poder tirar uma única foto. Ok, tive que fazer umas batotices. Tipo usar o Honor do maridão. Não se pode fazer pela primeira vez um mirror glaze cake e deixar passar a oportunidade de documentar tal feito. Que está aqui em baixo. Tão lindo.

Sim, fez-me muita falta. Seja a nível pessoal, seja para trabalho. É uma peça fundamental para quem é professional organizer, mas arrisco-me a dizer que é para qualquer profissão, hoje em dia. De repente, vejo-me com uma câmara escaganifobética e dou por mim a ter um daqueles momentos “wow” do género epifania de Sábado à noite, depois da terceira stout: o que as câmaras fotográficas dos telemóveis evoluíram! Impressionante. Quando me pus a espreitar a câmara da gerigonça até me deu uma coisa. Mas a gente fazia fotos com isto? Como? Quando?

O que podemos concluir?

As mais recentes tecnologias podem jogar a nosso favor e não depende das mesmas o sucesso ou insucesso, a produtividade ou improdutividade que retiramos da sua utilização. Depende inteiramente de nós utilizadores, da assertividade que acompanha as nossas decisões. Temos uma escolha simples nas nossas mãos: ou comandamos ou deixamo-nos comandar.

Se, no entanto, sentirmos que nos afastámos de forma irremediável do que é importante e que essa tecnologia está a afectar o nosso bem-estar, a nossa atenção e as nossas relações, poderemos estar num caso clínico de “adição” e a precisar de tratamento. Este artigo explica um pouco mais sobre este problema do qual existem cada vez mais casos.

É quase caricato que a única altura em que mudamos de perspectiva e apercebemos o quão saturados estamos de monitores e de informação é quando somos finalmente obrigados a ficar sem os mesmos. Porque deixamos de ter telemóvel, porque ficámos sem rede, porque estamos sem bateria. Mais uma vez, são as ferramentas a condicionar os nossos hábitos e não as nossas consciências de consumidores.

Tenho ainda uma reflexão a propor especialmente para as gerações pré-smartphone que como eu já utilizaram tecnologias mais antigas, como o primeiro Ericsson com a sua mega antena ou o primeiro Alcatel com a bateria a pilhas tipo corcunda. Olhando para trás é fácil deduzir que houve uma grande evolução no mundo das telecomunicações e no que diz respeito ao high tech em geral. O facto de já sermos utilizadores de longa data dá-nos essa perspectiva única. O que é mais difícil de conceber é que, na verdade, as tecnologias não foram as grandes protagonistas da mudança. Espelharam meramente a nossa metamorfose interior. Tal como Neo se apercebe no primeiro filme da brilhante trilogia Matrix:

“Instead, only realize the truth… THERE IS NO SPOON. Then you will see that it is not the spoon that bends, it is yourself.”

Nós mudámos. A nossa forma de raciocinar e de reagir. Mudaram os nossos hábitos de consumidor, de utilizador. Fomos reprogramados para processar mais informações ao mesmo tempo e de forma mais rápida, intuitiva e em permanente ligação com tudo. E pelo caminho tornamo-nos mais impacientes, menos tolerantes e mais desligados do que é estático, do que não nos transmite imediatez. Querem a prova final? Vão buscar alguns episódios de um desenho animado ou série dos anos 80, tipo “Sítio do Picapau Amarelo”. Agora vejam um excerto do filme “Kung Fu Panda” e tirem as vossas conclusões.

E o que apreendi eu ao final de um mês?

Apreendi que tenho de calibrar o uso dessa tecnologia, aproveitar o que me serve e impedir que me afaste dos outros ou que me transporte para a não realidade que é estar permanentemente wired. Apreendi que sou uma pessoa muito visual e que precisa de registar o que vê. Apreendi que há hábitos que se podem reprogramar, com muito esforço e tempo. Apreendi que posso ser mais e que posso reconquistar potenciais que pensava perdidos se souber seleccionar o que quero ver e como quero gastar o meu tempo.

E tu o que vais retirar daqui?

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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