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O que tu deves destralhar em 2018

Começar de novo

“Mais uma moedinha, mais uma voltinha!”, uma frase que neste início de ano tem o tom certo, fazendo de Janeiro o mês de todas as revelações e de todos os planos. O que se passará a seguir? Ninguém sabe. Fica-se na penumbra da expectativa e da incerteza e vai-se avançando, contando que mais um ano passe, embalados pela ideia de que algo de novo se irá concretizar e pela promessa de uma vida melhor.

Enquanto reflectimos sobre os passos que vamos dar e sobre o caminho que temos pela frente, vemo-nos forçados a pensar no que temos de deixar para trás. As nossas energias estão em alta neste momento, mas não são infinitas. Há que tomar uma decisão e deixar para trás o que não nos serve nesta nova viagem e trazer connosco unicamente o que nos irá ajudar a atravessar todas as pontes, mês a mês, de objectivo em objectivo.

E o que podemos nós deixar para trás, ou – falando com o jargão próprio da minha profissão – o que podemos nós destralhar neste ano de 2018? É sobre isto que vamos falar hoje, neste artigo fresquíssimo do primeiro mês deste 2018 tão promissor. Deixo-vos os meus dois cêntimos sobre este tema que me é muito querido e sempre tão actual e útil.

Apps

Começo com algo que não é tangível mas que tratamos com o mesmo entusiasmo de um coleccionador. Coleccionamos apps como quem colecciona cromos. Ficamos com elas, metemos na caderneta – que não é mais do que o nosso smartphone – enfiados numa “prateleira” reinventada no écran. A ganhar pó, intocadas e expostas numa vitrine. Nunca as abrimos, nunca as usamos, nem sequer dignamos dirigir-lhes o nosso olhar. Mas estão lá, perdidas na ilusão de um espaço infinito que não existe senão na nossa percepção. Porque, apesar de intangíveis, ocupam espaço, seja na logística dos nossos instrumentos, seja na nossa organização pessoal.

E porque estão lá? Algumas porque serviram o seu propósito por algum tempo e depois nós mudámos. Outras porque fomos levados por uma moda, seguindo o que muitos faziam. Outras ainda porque andávamos à procura da app ideal que afinal não era aquela.

Está na altura de mudar isso não achas? Afinal de contas, quem serve quem? Em princípio, o nosso smartphone deve ser uma utilidade, não uma montra de coleccionador. Daí que este seja um dos meus itens preferidos, porque não é daquelas coisas que costumam merecer a nossa atenção quando pensamos em destralhar.

E como o fazer? Simples: verifica nas definições onde está localizada a parte dedicada ao armazenamento e hábitos de utilização das apps (normalmente todos os smartphones, sejam eles do sistema Android ou iOS têm esta funcionalidade); aí podes ver quais as aplicações que mais usaste e as que mais negligenciaste. Daí à tomada de decisão é um passo.

Pensa sobretudo nos teus hábitos diários e no espaço de armazenamento que cada aplicação ocupa. Lembra-te também que quer uses um sistema de cloud ou não, terás sempre acesso às apps, mesmo que as retires do teu smartphone.

Compras

Esta é um pouco mais complicada porque mexe directamente com aquilo que se estabeleceu como um hábito. E os hábitos são lixados, não são? Sempre que saímos de casa e entramos casualmente num shopping, seja por necessidade, seja para acompanhar uma amiga nas compras ou simplesmente porque se tornou rotina, sentimos o canto da sereia que nos leva a cair na pergunta fácil: “Deverei comprar?”. Não contávamos comprar e esse são os momentos mais vulneráveis porque somos apanhados desprevenidos, porque não temos argumentos prontos. Somos levados pela teia de marketing e sedução que foi tecida à nossa medida, sem nós nos apercebermos.

O mesmo pode acontecer quando levamos uma lista de compras e uma mente decidida. Basta verificar o número de itens que trouxeste contigo da última vez que foste fazer as compras da semana. Há sempre algo a mais, porque achámos que fazia sentido, porque havia promoção, porque sentimos naquele momento que merecíamos. E, enquanto essa possa ser a nossa verdade naquele momento e até possa verificar-se como tal muito depois de chegarmos a casa, por vezes não o é e cai-se na compra fácil que não nos acrescenta valor.

Como evitar? Por vezes basta fazer a pergunta certa na altura certa:

És-me útil? Por quanto tempo?

Podes ser substituído por outra coisa que tenha em casa?

Estou a comprar-te por outros motivos?

Tenho espaço para ti?

Estou a comprar-te para mim ou para uma versão inexistente de mim?

Perguntas que exigem reflexão mas que trazem consciência e presença de espírito ao acto de compra. Para que depois não haja tralha e sobretudo arrependimento.

Culpa vs Responsabilidade

Duas palavras que fazem parte do nosso vocabulário e que tendemos a confundir. Utilizamo-las com a leviandade de quem se deixou levar pela flutuação do significado, ditado pelas tendências e cada vez mais afastado dos lexicógrafos que teimam em ancorar-se a noções empoeiradas mas que permanecem verdadeiras. Há uma subversão desse significado, uma promiscuidade da palavra que nos leva a trazê-la para o âmbito que acharmos mais conveniente. Para trás fica a semântica original.

Daí utilizarmos com frequência a palavra culpa em vez de responsabilidade. Usamo-la quando apontamos o dedo aos nossos filhos, aos nossos colegas de trabalho, aos nossos amigos (ou até a nós mesmos). Usamo-la para provocar uma reacção, tentando acordar o nosso receptor. No entanto, esta palavra pede penitência, expiação, reclama para si o sentimento devastador, o famoso “sentimento de culpa” que nem sempre vem acompanhado da energia vital que traz a mudança. Afasta-nos da noção de que o erro é uma oportunidade. Com a culpa, o erro transforma-se no nosso carrasco e impede-nos de sair desse sentimento avassalador de ter causado dano, de ter errado.

Tão diferente seria se usássemos mais vezes a palavra responsabilidade! É difícil de dizer não é? Comprida até. Culpa está mesmo ali à mão de semear, herança de uma educação por vezes conservadora, por vezes secular ou pura e simplesmente copy paste de geração em geração. Responsabilidade traz assertividade. Não aponta dedos mas atribui acções. Traz tomada de consciência e não expiação. Faz do erro o principal galvanizador das atitudes. Faz de nós protagonistas da mudança e não objecto de penitência.

Não me levem a mal. Nada tenho contra a palavra culpa. Sei que tem o seu lugar e o seu momento. No entanto, acho que devemos destralhar tendências de uso que não nos levam de A a B.

Tupperwares

Da culpa passamos para os tupperwares. Cuja manutenção é nossa responsabilidade, santos patronos que somos das nossas cozinhas. Um dos objectos mais badalados dos anos 80, com direito a festa temática, estes pequenos ajudantes da azáfama gastronómica conquistaram o coração de todos e vieram para ficar. Só que por vezes, ficam demasiado tempo e trazem consigo os amigos, a família e mais alguns penduras, os chamados “caixa de gelado” que entram nas festas de toda a gente e no dia a seguir ainda lá estão.

E assim fica a nossa gaveta, a nossa prateleira, o nosso armário cheio destes seres replicantes sem que consigamos usar nem uma décima parte, mas vão ficando porque “quem sabe um dia talvez?” ou porque “custaram tanto dinheiro!” ou ainda porque “um dia vou fazer isto e aquilo com eles”.

Está na hora de combater esta praga! Vamos fazer isto por fases:

1º Esvazia essa gaveta/prateleira!

Só terás a noção do que tens se retirares tudo (mesmo tudo) da prateleira ou da gaveta. Sem vergonhas nem complexos.

2º Reune tampas e caixas

E de cada vez que não encontrares um conjunto e ficares com uma caixa ou tampa solta, está na hora de destralhar!

3º Vê o estado de conservação!

Sujo, partido e com cheiros. Destralha! É simples não é?

4º Faz a pergunta certa

Que neste caso é a seguinte: Qual é o uso que tenho para ti? Se não tiveres nenhuma resposta em absoluto e estiveres a guardar para prevenir acidentes, não o faças. Com toda a probabilidade não irás utilizar.

Se quiseres continuar a ler (e já agora a rir!), deixo-te com este artigo que escrevi para o blog Bébéu a propósito de tupperwares.

Tempo

“Ui! Mas já tenho tão pouco! Como é que eu vou agora destralhar tempo?”

Pois o título pode gerar alguma confusão. Na verdade há dois tipos de tempo: o que acrescenta valor e o que não acrescenta valor. 

O tempo que acrescenta valor é o que te traz significado. O que melhora a tua qualidade de vida. O que beneficia outros. O que te recorda o essencial. O tempo de que te vais recordar daqui a uns anos. O que previne acidentes. O que tem de ser. O que deve ser.

Por outro lado, o tempo que não acrescenta valor é o que acontece quando baixas a guarda. Quando perdes a orientação. Quando te distrais. É o tempo que perdes à procura do que não precisas. O que perdes à procura do que queres em detrimento de outros e de ti mesmo. O que gastas sem pensar. O que dá aquele conforto momentâneo mas deixa-te como prenda o vazio.

Este ano proponho-te o seguinte: destralha esse tempo que não te traz mais valias e que te está a impedir de atingires os teus objectivos. E que tempo é esse concretamente?

O tempo que está a mais em frente a redes sociais.

O tempo que perdes a organizar roupa que não precisas de ter.

O tempo que gastas a fazer compras que não te vão trazer benefício.

O tempo gasto em reuniões sem sentido, em encontros sem direcção.

Faz uma lista e coloca na mesma todos esses tempos. Dá-lhes um prazo ou na pior das hipóteses reduz-lhes o tempo de antena. Ou então, lê mais um pouco sobre isso neste artigo que escrevi sobre gestão do tempo.

Plástico

Sim, este é dos mais complicados. Vai exigir sacrifício, saídas frequentes da tua zona de conforto, espírito de equipa, criatividade e até pensamento divergente.

Mas é o tópico mais importante. Urgente até. É daqueles que me fazem sempre lembrar uma famosa cena do Matriz, sabes? Aquela em que o Agente Smith está a falar com o Morpheus e faz este discurso:

“I’d like to share a revelation that I’ve had during my time here. It came to me when I tried to classify your species and I realised that you’re not actually mammals. Every mammal on this planet instinctively develops a natural equilibrium with the surrounding environment; but you humans do not. You move to an area and you multiply, until every natural resource is consumed and the only way you can survive is to spread to another area. There is another organism on this planet that follows the same pattern. Do you know what it is? A virus. Human beings are a disease, a cancer on this planet, you are a plague and we… are the cure.”

Ora não estou com isto a querer dizer que vou já encomendar meia dose de Agents Smiths para acabar com isto tudo. Mas quando dou de caras com imagens do que estamos a fazer ao planeta sobretudo à custas do plástico, lembro-me sempre (SEMPRE) destas palavras. O que estamos nós a fazer a este planeta? Para onde estamos a ir?

Urge um esforço colectivo que nos salve de nós mesmos. Temos que destralhar do nosso dia-a-dia todos os hábitos que estão a mais para nós e para o planeta.

Passa em revista todos esses hábitos. Tenta mudar de perspectiva. Faz uma lista de tudo o que podes fazer. Hoje, amanhã, ontem. Durante este ano. Participa em recolhas de lixo nas praias. Apanha lixo do chão. Usa sacos de panos para as frutas e verduras. Opta por pacotes de cartão reciclável. Deixa de lado palhinhas e loiça de plástico.

Dá uma vista de olhos a este e ainda a este artigo para teres uma ideia do que podes fazer mais. Lembra-te sobretudo:

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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