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A tua cozinha, as tuas regras!

Cozinhas, centro nevrálgico da casa

Há quem as ame, há quem as deteste, há quem tenha uma permanente relação amor-ódio, mas não há forma nenhuma de negar que as cozinhas têm um papel extremamente importante nas nossas casas.

Por que outra razão guardaríamos nós nessa assoalhada não só os nossos recibos, os nossos medicamentos, o nosso correio, mas também os nossos sonhos de cozinheiros e mestres pasteleiros de gaveta? As nossas cozinhas são quartéis-gerais improvisados onde depositamos o nosso dia-a-dia e quem por lá passar apercebe vivências, rotinas, vícios e hábitos que cada um traz consigo e que faz da cozinha seu repositório e confidente.

É também a assoalhada em que os cinco sentidos estão mais apurados! Ele é o cheiro do peixinho a grelhar, o som da faca a bater na tábua de corte e toda uma panóplia de tachos, pratos e utensílios de várias cores que populam a nossa banca, desejosos de uma salvação daquele purgatório improvável de espuma e água quente.

Um sítio com tamanha actividade tem o condão de servir de palco para comédias, tragédias e até verdadeiros dramas. Comédias quando nos achamos grão-mestres da colher de pau e duques do tacho e depois acabamos com uma refeição que cheira a desilusão e arrependimento por todos os lados. Quando este efeito é reproduzido num jantar com mais pessoas de fora, passamos directamente da Comédia para uma Tragédia em que só nos falta mesmo os coristas à boa maneira grega para termos o set completo.

O verdadeiro drama das cozinhas

No entanto, nada é tão dramático como uma cozinha em que não há espaço para comédias, nem tragédias. O verdadeiro drama é termos uma cozinha que deixou de ser funcional e passou a ser mais um espaço subaproveitado da nossa casa. Continuamos, no entanto, a lá depositar recibos, medicamentos e peças que vamos comprando numa vã tentativa de reanimação, mas na verdade acabamos por desistir de entrar e transformar esse espaço num espaço de vida e funcionalidade. O resultado? Passamos a comer fora mais vezes e os gastos da casa sobem vertiginosamente.

Então o que podemos fazer para transformar este espaço e insuflar-lhe de novo a vida que tanto merece? Mesmo quem não morra de amores por este espaço e não ande a trepar paredes para cozinhar, pode obter o melhor dos negócios se tiver uma cozinha optimizada e pronta a usar.

Como obtemos isso? Através de regras. Simples.

E sabes que mais? Isto não sai daqui está bem? Não digas a ninguém, ok? Aqui vai: vamos passar em revista algumas dessas regras mais importantes. Que fixe, não é? 😉

Regra número 1: Divide a cozinha por zonas!

Ok, esta é bastante intuitiva. Uma cozinha tem de ter zonas, certo? Aqueles sítios onde tu fazes coisas específicas. Se pensares bem, essas zonas estão bem definidas noutros sítios da casa. A cama no teu quarto é o sítio onde tu dormes. O teu roupeiro onde guardas a tua roupa. Agora pensa o que seria se essas zonas não estivessem definidas. Acabarias a dormir dentro do armário e as tuas roupas ficariam todas espalhadas na tua cama. O que não dá muito jeito, convenhamos.

“Ah e tal mas isso é estúpido.” Pois claro que é, tens toda a razão! Há que ter zonas com funções específicas no nosso quarto.

Mas então e a cozinha? Porque eu já te vi a guardar tupperwares em 3 sítios distintos e medi a distância que vai do sítio onde guardas os víveres de pequeno-almoço e a zona onde os preparas. E também me apercebi que tens por hábito espalhar os medicamentos um pouco por toda a cozinha. Pois, eu sei, não tiveste tempo.

“No entanto, a tua cozinha também merece esse cuidado, não achas?”

Uma assoalhada ganha dimensão e funcionalidade com essa definição tão essencial de zonas. Assim como faz sentido um sítio para dormir no nosso quarto, também faz sentido que na nossa cozinha haja:

  • um sítio para preparação de refeições;
  • um sítio para armazenar todos os tupperwares;
  • um sítio que sirva de despensa;
  • um sítio com tudo o que nos serve para o pequeno-almoço;
  • um sítio para lavar e secar as loiças, com tudo o que é preciso;
  • um só lugar para tudo o que é medicamento, de preferência bem distante das crianças.

Não te esqueças que há algo igualmente importante quando defines zonas: mantém por perto tudo o que faz sentido e se define por essa zona. Por exemplo, que sentido faz teres as travessas no armário de cima do outro lado da cozinha, quando tu as utilizas especificamente para o forno? Da mesma forma, porque é que tens o teu correio e recibos numa zona que é claramente usada para cozinhar? Agora pensa em todas as pequenas incongruências que tens na tua cozinha. Identifica e define as zonas consoante a funcionalidade e frequência de uso. Que só tu e a tua família podem saber, porque tem de ter a vossa marca.

Regra número 2: Todos a remar na mesma direcção!

De nada serve termos uma cozinha bem arrumadinha, organizada, com zonas bem definidas e cada coisa no seu lugar se depois há uma ovelha negra na família que teima em colocar o açúcar bem ao fundo do armário só porque é mais alto. Ou deixar a torradeira de fora depois de fazer torradas porque a mãe até gosta de limpar o que os outros fazem. E sim, isto acontece também na minha casa. Claro que sim. Para já ainda não fui abduzida por extra-terrestres portanto ainda pertenço à raça humana.

Os problemas começam quando não andamos todos a remar na mesma direcção. Leia-se: quando não utilizamos o espaço da mesma forma. Quando a tarefa de pôr tudo no sítio e de limpar o que é preciso acaba por recair na mesma pessoa, estamos a preparar o terreno para o armagedão das cozinhas, aquele que leva a que as coisas percam o sítio e acabem no fundo dos armários, afastadas de qualquer sinal de vida. E depois? Acabamos por voltar a comprar porque não encontrámos.

“E nós não queremos isso, pois não?”

O truque passa por fazerem a definição de zonas e sítios específicos juntos de forma a todos participarem e todos saberem à partida o lugar de tudo. Se não for possível, a pessoa encarregue de fazer essa revisão terá de perder algum tempo depois a comunicar às restantes pessoas, explicando o porquê de certas definições e posições. Poderá também haver alguma discordância, mas é tudo preferível a haver uma anuência e depois o caos total. E nesse processo, até tiramos o emprego à borboleta a bater asas do outro lado do mundo. Tadinha.

“E chega?” É claro que não chega! Sobretudo numa casa onde também moram crianças há uma componente dejá vu que todos os pais bem conhecem: a repetição. Até gastarmos a voz. Até o vizinho do lado conhecer de cor as nossas ladaínhas. No entanto, também há uma forma de reduzir um pouco essa repetição (eu disse reduzir, não há esperança nenhuma para deixar de dizer as coisas mais do uma vez): deixa-os participar nas decisões da cozinha. Quando eles participam, vêem na cozinha o espelho das suas decisões e do que eles são também.

“A cozinha passa a ser um espaço deles, criado por eles.”

Fiz isso há pouco tempo com os meus filhotes, mas no quarto de estudo deles (que faz também as vezes de escritório… e quarto de hóspedes…). Notei uma tendência para deixar algumas coisas fora do sítio. E também não deixavam tudo limpo, depois de usarem. Ainda tentei chegar lá pelos 5S e pelo paleio da organização japonesa mas nada feito. Parece que a única tótó que gosta dessas coisas de forma irreversivelmente nerdística sou mesmo eu.

A única coisa que tem funcionado é passar-lhes essa batata quente. Impedi a nossa empregada de ir lá e ficou a limpeza e a manutenção do local à responsabilidade deles. Estivemos uma tarde a limpar, ensinei-lhes alguns truques para limpar o pó e foi tudo limpo de fio a pavio. Agora mantêm o local mais limpo e arrumado porque se tornou deles. E também porque limpar e arrumar custa, é um esforço.

No entanto, reitero: com crianças e adolescentes (e maridos… ou mulheres também!) há sempre espaço a repetições. Conta com isso. Até ao final dos teus dias. Sim, estou a ser dramática. Só falta mesmo a banda sonora a condizer.

Regra número 3: Mede alturas e profundidades!

Isto é regra de ouro em qualquer cozinha. Não há como enganar. A frequência de uso vai ditar a pertinência da localização. Daí que colocamos, por exemplo, os pratos e os copos mais à frente, as especiarias bem junto do fogão e a varinha mágica na prateleira de cima. Mas por vezes essas diferenças esbatem-se ou as nossas prioridades mudam e acabamos com uma cozinha desfigurada e desadequada das nossas necessidades e dos nossos hábitos.

Tem em conta dois aspectos: a altura e a profundidade.

Vamos à altura. Coloca bem ao nível dos olhos as coisas que utilizas com maior frequência, tipo diariamente. Deixa para as prateleiras ou gavetas imediatamente abaixo tudo o que utilizas semanalmente. Em baixo de tudo ficam duas tipologias: o que utilizas menos e o que é mais pesado e tem que ficar forçosamente em baixo. Em cima podem ficar coisas leves mas que utilizas com muito pouca frequência. Se tiveres um marido com 1.80 de altura e se for ele a configurar essas alturas, pede-lhe que se lembre de ti. Ou que te arranje um banquinho.

“Ou então faz-lhe um ultimato e ameaça deitar fora a sua colecção de garrafas de cerveja vazias. Também dá.”

Eis o que pode ser organizado consoante a altura (são apenas sugestões, é o vosso uso específico que vai ditar este sistema):

  • em baixo: fritadeira pesada, máquina de fazer pão que se utiliza uma vez por mês, grelhador para usar no verão;
  • imediatamente em baixo: travessas para festas, electrodomésticos de utilização semanal, gaveta de tupperwares;
  • a meio: varinha mágica, travessas que utilizamos todos os dias, pratos e talheres de uso diário, utensílios para cozinhar;
  • imediatamente em cima: copos de uso diário, taças de pequeno-almoço, pratos de sobremesa, saladeiras pouco pesadas;
  • em cima: copos de festa ou para ocasiões especiais ou de uso específico (tipo copos de vinho do Porto e cerveja), vidros em geral utilizados também em situações mais específicas, peças com valor artístico mas funcionais.

“Não te esqueças de ter em conta as crianças.”

Têm pratos de comer para elas? Queres incentivar as tarefas em casa tal como pôr a mesa, certo? Então terás que colocar essa loiça à altura delas para que o possam fazer autonomamente.

Relativamente à profundidade, o discurso é o mesmo. À frente tudo o que se utiliza com maior frequência e atrás o que tem utilização mais ocasional (sobretudo prateleiras mais baixas). Quando a visibilidade dentro do armário for pouca, convém também manter o que é mais alto atrás para que os possas ver. Assim acedes com facilidade e não precises de ter um currículo de atleta olímpico para conseguires lá chegar.

Lembra-te: na cozinha é tudo uma questão de acessibilidade e visualização. O que leva à minha quarta regra.

Regra número 4: Ter na cozinha só o que se utiliza!

Pois é muitas vezes os nossos apegos acabam por ganhar a corrida das nossas prioridades. Com alguma batota pelo meio, ainda por cima. O que quero com isto dizer? Muitas vezes vamos acumulando objectos na nossa cozinha que não usamos. Tralha portanto. Que acontece também noutras áreas da nossa casa. É fatal como o destino. E todos o fazemos, repara. Até já escrevi um artigo sobre isso aqui.

E tal como acontece nas outras assoalhadas da casa, por causa desses apegos que teimamos em manter, perde-se a visibilidade e a acessibilidade. Acabamos com um armário da nossa cozinha tão cheio de tupperwares que nem vemos o fundo. E muitos desses tupperwares acabam atrás, escondidos, à espera da inevitável decadência que tarda em chegar. E o que fazemos então ? Não encontramos? Voltamos a comprar! Voltamos a acumular. Continuamos cada vez mais, inexoravelmente, a perder a batalha pela visibilidade e acessibilidade aos famigerados apegos. Está na hora de dizer “não”!

Pega em tudo, coloca tudo em cima da mesa e diz uma por todas não a metade do que tens, fazendo as perguntas pertinentes:

Preciso de ti?

Estás deteriorado?

Tens todas as peças?

Haverá ainda chocolate?

Dás umas valentes dentadas nesse maravilhoso chocolate 70% sólidos de cacau. Aquele que entretanto encontraste como se estivesses num daqueles programas meios parvos de sobrevivência. Abres uma cerveja artesanal imperial stout fresquinha que tinhas reservado para depois (mas agora, cum caneco, até mereces!). Finalmente, pegas nos tupperwares que ficaram e voltas a colocar no armário mas, desta vez, tem em conta tudo o que se disse para trás: frequência de uso, acessibilidade, visualização. É isso mesmo!

Regra número 5: Faz o papel de Revisor Oficial de Cozinhas (ROC, portanto!)

Para esta nem precisas de contratar o pitucha. Basta mesmo fazer aquela pausa necessária para reveres o que criaste na tua cozinha. As posições das coisas, as alturas e profundidades, a definição de zonas. Agora, pensa nos teus hábitos de antes e nos que tens agora.

  • O que mudou?
  • Foste operada ao joelho?
  • Começaste a ter dores nas costas e estás na fisioterapia?
  • Os teus filhotes cresceram e agora já chegam perigosamente à prateleira dos chocolates?

Está na altura de fazer uma revisão e repetir os passos que dissemos atrás.

Estas revisões são sempre fulcrais para que haja fluência dos espaços. Os espaços da nossa casa albergam seres vivos. Pessoas que crescem, mudam, têm empregos, actividades, filhos, amigos, hobbies que vão e vêm. E, por vezes, fases em que vêem o Masterchef e dá-lhes na gana cozinhar verdadeiras iguarias todos os dias (bem, fica pelo menos a intenção).

Assim, os espaços reflectem o que somos. São o espelho das nossas vivências. Daí serem funcionais, porque funcionam connosco, dependem de nós para funcionar. A disfunção acontece quando há uma ruptura entre o que queremos fazer e ser e um espaço que não acompanha essa intenção.

Portanto faz esse papel tão importante de ROC as vezes que precisares. Isto para poderes continuar a ter esse espaço tão importante da casa, esse centro nevrálgico bem activo e pronto a servir-te.

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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