Mitos sobre organização: Verdade ou Mentira?

O Mito e a Humanidade

Desde cedo, o mito foi inventado para nos ajudar a aceitar o mundo em nosso redor. Amenizando o que à partida nos parecia assombroso. Mais do que outra coisa porque teimamos em ver o que nos rodeia pelo nosso prisma. Se não podemos humanizar, o entendimento do que nos é externo fica mais reduzido. Daí o nascimento do mito: para dar uma explicação humana ao que nós, na nossa compreensão limitada, não conseguimos ainda entender e para o qual não temos ainda resposta.

Através do mito, foram criadas autênticas epopeias, deuses e semi-deuses que causavam o trovão, a luz, a lua no céu e os vários elementos da natureza. Ao mito aliou-se a poesia e juntos deram à luz histórias em que o maravilhoso brincava com o olhar extasiado das crianças que se reuniam à volta da fogueira para as ouvir da boca dos anciãos da aldeia. E naqueles breves momentos imaginavam um mundo em que o ser humano surge como ser especial, único e, sobretudo, dotado de um propósito.

O Mito e a Ciência

Entretanto a ciência veio trazer-nos ferramentas para medir o que era até aí imensurável.

Veio trazer respostas, factos e, em parte, desfez o mito, trazendo a fria realidade de um mundo com uma face menos humana mas mais autêntico. Um mundo em que não há seres especiais mas partes de um mesmo ecossistema a funcionar em harmonia com leis e regras bem definidas. Abraçamos finalmente o caos, fazendo dele a nossa nova ordem do dia. Abraçamos a dúvida, a questão e a procura da verdade. O que por um lado fez de nós seres menos estáveis e menos confiantes, mas menos toldados pelo mito. Podemos achar que a poesia se perdeu e que deixámos o maravilhoso de lado, mas, na verdade, a poesia está lá em conceitos como a teoria do caos, a entropia e o próprio ciclo vida-morte.

No entanto, ainda hoje recorremos ao mito quando as situações que temos que enfrentar são demasiado intensas. Fazemo-lo quando a nossa visão está distorcida por uma perspectiva enviesada que criámos como protecção contra o que não conhecemos e que nos aterroriza. E isso acontece quando estamos mesmo à beirinha das nossas zonas de conforto. Quando nos vemos obrigados a aceitar a mudança.

O Mito e a Organização

E por isso dizemos que “a organização é um processo demorado” ou evitamos mostrar aquele quarto porque “a desorganização não se mostra”. Continuamos a dizer que “a organização é perfeição”, colocando-a a um nível que nunca poderemos alcançar e assim… nem precisamos de tentar. E convencemo-nos que não vale a pena organizar porque para ser organizada “preciso de mais espaço e aqui não o consigo ter”.

Tudo respostas que damos por medo e porque não confiamos totalmente no que somos capazes de fazer. Porque organizar é tomar uma decisão e tomar uma decisão é um acto de coragem que nos obriga a pôr de parte o mito e a aceitar a realidade.

5 mitos sobre Organização

Daí que o intuito deste artigo é falar um pouco sobre 5 dos mais conhecidos mitos da Organização, estudados por Professional Organizers um pouco por todo o mundo. E para cada um dou uma resposta concreta que te ajude a reflectir e a encontrar uma via de saída.

Parece-te bem? Vamos a isso!

“Não fui talhado para isto!”

Este é um clássico, não é? Experimentamos ser organizados e não corre bem. Nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Entretanto parte de nós não quer tentar mais, sentimos que afinal já não queremos. Dizemos então que não nascemos ou não fomos talhados para isso. Mas na verdade, todos podemos apreender a ser organizados. Não é algo que nasce connosco, não é hereditário e pode ser ensinado.

Basta acreditar e mudar o paradigma. É possível. Como em tudo há que haver um esforço inicial que pouco a pouco vai cimentando. Quando damos por ela estamos a organizar como a andar de bicicleta. Um pouco como dizia Auguste Gousteau no Ratatouille: “Anyone can Cook!”. Aqui eu digo “Anyone can Organize!”

Faço aqui a ressalva que este pensamento vem por vezes na sequência da nossa concepção errada do que deve ser a organização. Esquecemo-nos de nós nessa equação, deixando de lado a parte customizável da organização. A ideia de que a minha organização é diferente da tua parece ser ainda só isso, uma ideia e não uma realidade concreta nas nossas mentes.

“Ser desorganizado é uma vergonha!”

Pensamento muito enraízado na nossa cultura, sobretudo porque assim nos foi ensinado pelos nossos pais, temos hoje a síndrome da vergonha da desorganização. Pelo caminho esquecemo-nos de fazer a reflexão de que o dia-a-dia dos nossos pais e o nosso não são a mesma coisa: houve mudanças bem radicais. Somos mais requisitados, de uma forma geral, por distracções de vários formatos, por uma mentalidade que nos leva a consumir mais do que precisamos. É-nos exigida maior dedicação às nossas carreiras. Tratar da casa e ser uma verdadeira fada do lar deixou de ser prioritário.

Todos esses factores levaram à conclusão óbvia: somos mais desorganizados e temos mais tralha em casa. Não digo em jeito de pretexto ou desculpa, mas para entender melhor como chegámos aqui. Para entender que o paradigma mudou e que os ensinamentos dos nossos pais agora perderam um pouco a razão de ser.

“Urge uma nova forma de se organizar. Uma que se coadune com todas estas mudanças.”

E nesse processo não há pior reacção do que a vergonha. A vergonha traz consigo a semente da culpa e com a culpa a punição e a auto-comiseração. A ideia de que “Nunca vou conseguir!” cria raízes difíceis de remover. Nada disso. Neste processo deve entrara outra palavra: responsabilidade. Aquela que, sem vergonhas, nos leva a pegar no processo e destrinçar um plano, uma meta e um objectivo. A palavra que nos leva à acção. Que nos leva a pedir ajuda quando precisamos, sem pudores. Que nos leva também a relatar a nossa situação a outros, sem medos, sem vergonha, porque sabemos que a nossa experiência vale ouro para outros em situações semelhantes.

Daí que seja necessário divulgar, falar sobre a desorganização, expo-la, reduzi-la a algo mais corriqueiro, natural e pelo qual todos passam. Tal como aceitamos que precisamos de fazer exercício, ou que precisamos de fazer dieta, ou que precisamos de um canalizador em casa, também não é vergonha nenhuma aceitarmos um professional organizer em nossa casa e contarmos a nossa história, mesmo nas redes sociais.

“Pode servir de catarse para nós e de inspiração para os outros.”

Quanto a sermos julgados pelos outros, lembram-se da história do velho, da criança e do burro? Iremos ser julgados de qualquer forma. Também ao reverso da medalha: sermos julgados por sermos demasiado arrumadinhos, é ou não é? “Ai esta casa parece um museu, não se pode tocar em nada!” “Mas vocês vivem aqui?” E, no entanto, não deve haver nenhum receio em mostrar o que é a minha casa e o que sou. É a minha história e tenho muito orgulho nela.

“Organização é perfeição!”

Digo mais uma vez: organização não é perfeição. Longe disso. É a identificação do que precisamos, do que queremos do que nos serve e é um caminho para o nosso auto-conhecimento. Existe uma forma de organizar diferente para cada um de nós que é sempre pautada pela nossa imensa humanidade.

Por esse motivo, qualquer acto de organização é um acto humano, com as suas falhas e defeitos. Um ambiente organizado é um ambiente funcional, não um estandarte de perfeição. É um sítio que sabemos controlar, que é nosso e que fazemos nosso.

O grande perigo de almejarmos mais do que conseguimos digerir (ou como se diz em linguagem corrente “ter mais olhos de barriga”) é criar um sistema impossível de gerir, que não nos conhece, não nos tem em conta, mas que visualmente é um mimo.

As fotos perfeitinhas dos armários, cozinhas, casas de banho em que o minimalismo e a luminosidade imperam estão a ter o mesmo efeito na nossa noção de organização que os corpos esguios e irreais das modelos de capa de revista estão a ter na nossa noção do que é o verdadeiro corpo da mulher (uma pista: não existe só um).

Ficamos tão desanimados por não conseguirmos aquele resultado de capa de revista que desistimos e achamos a tarefa mais do que impossível. A desorganização instala-se, pede-se a tomada de decisão o que equivale a comer aquele donut coberto de chocolate como se não houvesse amanhã.

“Compro estes acessórios fantásticos e vou ficar com tudo organizadinho!”

São giros não são? Também gosto muito deles. Escondem-se aquela promessa tão boa de um mundo que abre as suas portas a nós para entrar finalmente no clube da organização. Até ouvimos passarinhos a chilrear quando os compramos. E sentimo-nos mais leves e excitados. Alegres até.

Não confundamos as coisas: o efeito que estás a sentir é da dopamina que foi segregada pelo acto da compra. É o mesmo efeito que comer um alimento açucarado, que beber aquela cervejinha artesanal ao final do dia ou aquele cigarrinho a seguir ao almoço.

O pior é que esse efeito acaba quando chegas a casa. Quando te apercebes que tu também estás envolvida no processo. Até colocas os novos acessórios na gaveta (ou às vezes não). Até dobras tudo direitinho. O problema começa com a manutenção desse sistema. Ou a reflexão a priori do mesmo.

A organização não é uma só coisa. É tomada de decisão, é libertação do que já não nios vserve, é o desenho de um sistema, é reflexão, é introspecção, é a descoberta do que somos e do que precisamos e do que queremos, é ir atrás das nossas metas.

Os acessórios só estão lá a fazer de claque. A dar aquele apoio que efectivamente nos estava a faltar. Mas o protagonismo deste processo não é deles, é teu.

“Para se ser organizado é preciso muito tempo!”

É verdade que o processo de organização na sua totalidade leva muito tempo. Diria, uma vida inteira. Isto se entendermos o processo de organização como melhoria contínua, como eu entendo. Nunca deixa de existir nas nossas vidas, nunca vai deixar de ser uma das pedras basilares do nosso dia-a-dia.

No entanto, o acto de organização, a passagem da reflexão à acção não precisa de tomar muito tempo. Falei recente sobre isso neste artigo (casas de banho).

O truque está em ter estes momentos de organização todos os dias. Eles aocntecem quando dobramos a roupa logo depois de nos despirmos. Acontece quando retiramos aquela embalagem vazia da nossa casa de banho. Acontece quando despejamos o lixo sempre a mesma hora. Acontece quando abrimos o armário e em 5 minutos retiramos pelos menos 10 coisas que já não fazem sentido estarem ali.

Todas estas acções não levam muito tempo. E a boa notícia é que quanto mais vezes praticares, menos tempo te leva. Torna-se um processo orgânico e natural que flui com rapidez e ja algum automatismo.

“Como um músculo, quanto mais trabalhares a tua organização, mais ele entra em acção com facilidade.”

Claro que haverá momentos de grande reformulação, destralhe e organização em tua casa, sobretudo quando tens um projecto de organização em mente. Mas estes ocorrem quase como um reset do sistema. São eventos anómalos no teu log do dia-a-dia. Sim, uma vez num ano poderás ter de fazer este reset. Mas estamos a falar de quanto tempo num ano. 1 dia? 2 dias?

Depois, a cimentação de rotinas e a criação desses pequenos hábitos parte mais de uma mudança de paradigma do que da quantidade de tempo dedicado. Compreensivelmente, como é algo que exige esforço, criamos em nós a percepção de se perder muito tempo. Fazemos equivaler o tempo ao esforço percepcionado. Daí dizermos que o tempo é relativo. (Na verdade, Einstein dizia isso por causa da velocidade, mas poteito, potáto….).

Gostaste deste artigo? Fez sentido para ti? Então deixa o teu comentário, partilha com os teus amigos e não te esqueças de pôr em prática! E se quiseres, estou aqui para ti, ok? Marcamos um encontro e contas-me a tua história de organização, pode ser?

Fica combinado! 😉

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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