Porque não concordo com o método KonMari

Organização e Star Wars? A sério?

No mundo da organização encontramos várias abordagens diferentes, espelhando o que se passa em muitas outras áreas que nos suscitam interesse.

Um pouco como acontece na saga Star Wars. Há quem aconselhe ver todos os filmes na ordem em que saíram. Há quem prefira vê-los por ordem cronológica. Há quem se recuse ver os primeiros 3 filmes. E quem esteja indignado com os últimos 2 filmes. Entre os fãs da saga partilha-se o ódio comum pelo personagem mais mal parido pelo universo dos sabres de luz: Jar Jar Binks.

Porquê esta comparação aparentemente digna da actual silly season? Porque também entre os fãs da organização há quem siga determinados métodos de forma quase religiosa. Quem consuma videos e tutoriais a torto e a direito e quem advogue outras perspectivas. E também quem acaba de chegar e escolhe fazer uma passagem breve por todos os estilos, cometendo alguns erros de início, mas refinando pouco a pouco o que é para si o ideal. Isto falando tanto de clientes como de professional organizers.

Metodologias de organização

Quem está por dentro da indústria da organização conhecerá certamente o método KonMariMarie Kondo lançou o seu primeiro livro “Arrume a sua Casa, Arrume a sua vida” em 2011, um best seller em muitos países a partir de 2014.

Quem me conhece e conhece a metodologia que está presente nas sessões de organização da OrganiGuru, sabe que não sigo nenhum método específico. A estratégia passa muito por ouvir os meus clientes, analisar a fundo a situação presente. Finalmente, adequar um plano específico a cada caso, à medida da pessoa.

Para tal, por vezes, vou buscar diferentes técnicas, diferentes formas de pensar. Até disciplinas como o coaching e o pensamento lean que possam constituir mais valias para o cliente em questão. A meu ver, optar por uma determinada metodologia a 100%, para qualquer cliente, de forma indiscriminada, é à partida uma estratégia destinada a falhar. Porque nem todos os clientes se adequam a essa forma de pensar.

O método KonMari

“Mas afinal de contas qual é o teu problema com o método KonMari?” perguntam vocês.

Tenho-o seguido há algum tempo e fui construindo uma opinião baseando-me no que fui lendo sobre este método. Sendo um dos mais seguidos e, por vezes, foco central de “modas passageiras” (todos sabemos que as há), achei que seria interessante servir de advogado do diabo. Mais nem seja para trazer algum distanciamento crítico que é sempre bom e convida ao debate saudável.

Como o livro tem muitas premissas a serem revistas, vou concentrar-me, para já e neste artigo, nas que são mencionadas no primeiro capítulo. Quanto aos outros capítulos, lá chegaremos com tempo, em artigos futuros.

Então aqui vai:

“Uma Maratona de Arrumação não causa efeito boomerang

Assim começa a segunda premissa ditada por Marie Kondo no primeiro capítulo. Nela afirma que um bom trabalho de organização deve ser feito sem demoras, de uma só vez. Que o chamado efeito boomerang não acontece se organizarmos tudo de uma assentada só.

O grande problema desta premissa é que se torna irreal à medida que vamos configurando exactamente o que significa organizar. A organização é um esforço mental e emocional enorme. Implica foco. Implica uma força de vontade imensa. Implica a restruturação do nosso raciocínio. Implica também a reformulação de formas de fazer a longo prazo (as chamadas rotinas). E implica o treino da tomada de decisão. Adicionalmente, subentende um conhecimento cada vez mais profundo do que somos, do que queremos. Um conhecimento do que precisamos como indivíduos e como famílias, nos nossos âmbitos pessoais e profissionais. Para além do já badalado treino do desapego.

“Ora este tipo de restruturação mental e treino comportamental não se consegue de uma assentada só.”

Consegue-se a longo prazo e pela repetição, tal como nos explica este artigo da Phychology Today, com especial foco na terapia cognitiva e comportamental.

Para além disso, forçar esta restruturação em pouco tempo assemelha-se muito às ditas dietas de verão. As que nos prometem a perda de todos os quilos que estão a mais em pouco tempo. No entanto, deixam completamente de lado a cimentação de bons hábitos e boas práticas para manter esses resultados a longo prazo.

O mesmo se passa com a organização. A não ser que tenhamos um foco e uma capacidade de encaixe fora do comum, é um processo que vai sendo incorporado nos nossos hábitos. Pouco a pouco, de experiência em experiência.

“Se arrumar (leia-se ‘destralhar’) de rajada, em vez de pouco a pouco, pode alterar drasticamente a sua mentalidade!”

Muito pelo contrário. Optar pelo descarte compulsivo para se atingir esse ideal minimalista vai levar inevitavelmente a mecanismos de coping para colmatar a perda que acompanha esse descarte.

“Porque em todos os processos de descarte e desapego há uma perda.”

Uma perda que tem de ser acompanhada e que tem de acontecer a conta gotas. Para habituar a nossa mente a essa nova situação. Caso contrário, vamos sobrecarregar a nossa parte emotiva. No minuto a seguir a descartar doses industriais de tralha vamos optar pela compra para tapar esse buraco que ficou de um momento para o outro completamente vazio. Isto porque a compra activa vários componentes no nosso cérebro. Entre eles a dopamina que traz a sensação de bem estar e apazigua a ansiedade e o sentimento de depressão que acompanha a perda. Isto está estudado e explicado, tal como podem confirmar por este artigo.

Obviamente nem toda a gente tem o mesmo apego. Daí que enquanto muitas pessoas conseguem descartar grandes quantidades de tralha de uma só vez, outras tem de o fazer com cautela. Cabe ao profissional saber fazer a distinção entre os dois casos e adequar a sua metodologia ao cliente.

“Arrume um pouco por dia e estará sempre a arrumar!”

Pergunto-me exactamente o que haverá de errado com esta frase. Não deveria ser um hábito bem inculcado nos nossos hábitos diários? Com a crítica conseguinte que a autora faz a esta frase fica-se com a impressão que Marie Kondo não vê a arrumação com bons olhos. Ou a vê como aquela coisa inevitável mas odiosa que tem de ser feita o mais rapidamente possível. Desde o momento em que vemos na organização um hábito a desprezar, mais facilmente estaremos destinados a falhar.

Quem organiza a própria casa e a sua vida, tem de gostar do que faz. Ou pelo menos entender o grande propósito e a grande vantagem que tem ao fazê-lo. Não tem de ser um processo entediante. Melhor: quanto mais o praticar, todos os dias mais irá adquirir competências e mobilidade para o fazer.

“Um momento pontual transforma-se assim num automatismo e num treino desse músculo tão importante que é o músculo da decisão.”

Não me interpretem mal. Não vejo mal nenhum no “arrumar de rajada” como a nossa Maria advoga. Acho que pode acontecer pontualmente uma vez por ano. No entanto, se não nos habituarmos ao longo do ano a ir fazendo pouco a pouco, deixamos de lado o que a terapia cognitiva e comportamental nos têm ditado.

Quanto ao efeito boomerang tão temido pela autora deixo a pergunta: porque devemos temer tanto este efeito e as recaídas? O erro e a tentativa são partes cruciais de qualquer aprendizagem. Porque vamos nós negar algo tão fundamental?

Lembremo-nos também que a cultura em que vivemos, tendencialmente mediterrânea tem outro ponto de vista e outro enquadramento, diferentes da cultura japonesa. Algo que não deve de todo sair da nossa balança.

“Porque deve ambicionar a perfeição”

Até há bem pouco tempo conseguimos finalmente sair da redoma da mulher/mãe/profissional perfeita. E admitir que pertencemos ao resto da raça humana. Esta afirmação é de um retrocesso incrível. Posso dar-lhe um enquadramento cultural, mas, mesmo assim, não considero que possa ser uma questão de cultura. É uma questão de equilíbrio mental e emocional.

Prefiro optar pelo que digo aos meus filhos desde sempre. Não lhes exijo notas específicas nos testes, nem parâmetros complicados na arrumação dos quartos. Para além de algumas linhas-guias digo uma só coisa: sejam e façam o melhor de vocês. Ora segundo o terceiro acordo de Don Miguel Ruiz, sabemos que o nosso melhor não é sempre igual. Tem dias. Daqueles que sabemos que estamos a 1000. Outros em que nem metade do que nos propusemos conseguimos fazer. Ao fazermos sempre o que conseguimos, estamos a garantir que usamos o nosso potencial na totalidade.

Ora este conceito é bem diferente do que ir atrás da perfeição. Ao estabelecermos metas irreais iremos cair na frustração de não obter aquela compensação tão boa que é chegar aos nossos objectivos.

“Para além do mais, uma das coisas melhores do ser humano é a imperfeição. Porquê queremos nós descartar essa parte nossa tão verdadeira e tão boa?”

Na verdade, o que Marie Kondo nos diz prende-se com o conceito de que “descartar um item por dia” é pouco ambicioso e que não há mal nenhum em ambicionar mais, em ambicionar a perfeição. Posso entender que efectivamente “um item por dia” possa não funcionar para todos. No entanto, utilizar este argumento para defender a perfeição é falacioso. Aqui trata-se tão somente de calibrar os objectivos que nos propomos. Terá que se descobrir o que é para nós o ideal. E essa deliberação está intimamente ligada com o potencial de cada um, com o nosso melhor, aquele que muda de dia para dia.

Quanto à organização ser um acto físico, desculpa-me Maria, mas não concordo. A organização é muito mais do que um acto físico, como já mencionei antes.

“Os especialistas nas soluções para organizar espaços são acumuladores”

Esta frase baralhou-me por completo na primeira e nas vezes subsequentes em que a li. A quem te estás tu a referir exactamente? Às colegas de profissão? Às lojas?

Mais uma vez, cai-se na generalização fácil e bacoca. Sem verificar exactamente se é bem assim ou se não haverá, naturalmente, um pouco de tudo. Esperava mais de ti Mariazinha…

Na verdade, neste nosso mundo da organização e dos professional organizers há tantas modalidades diferentes quanto clientes. Quem opte pela vertente minimalista. Quem faça make-overs. Quem monte armários. Quem lide exclusivamente com sub-contratados. Quem se especialize em vender produtos de organização. Há de tudo. Concorde-se ou não. Colocar tudo no mesmo saco vai contra o que disseste antes sobre a separação por categorias, no mesmo capítulo. Em que ficamos então?

Posso dizer que, na minha profissão e pelos encontros que vou tendo com outras profissionais, são raros os casos em que vejo o foco nos acessórios de organização.

“Na grande maioria das vezes, temos todas o mesmo objectivo comum. Reduzir a quantidade de “tralha” que o cliente tem em sua casa. E depois criar um ambiente organizado que possa ser mantido a longo prazo, para evitar recaídas.”

Em nenhum caso, o produto de organização adquire maior importância do que todo o processo que ele apoia. Por norma, os acessórios a comprar são a segunda opção, caso não haja em casa do cliente suportes necessários para ajudar a organizar o que fica. Concordo que grande parte da organização está em ter só o que se precisa e não mais do que isso. No entanto, a configuração de um sistema de organização que facilite a visibilidade e acessibilidade dentro de armários, gavetas e estantes, também é organizar. E faz toda a diferença, não invalidando todo o trabalho feito para reduzir a “tralha”. Se a compra dos acessórios fizer parte deste processo, porquê dar-lhe essa validação tão negativa?

Optar pela compra de acessórios ou pela reutilização do que se tem muda muito de cliente para cliente. E também de profissional para profissional. Para mim faz sentido treinar a não compra ao mesmo tempo que se treina o desapego por uma questão de coerência e lógica. Não tem lógica nenhuma advogar que se deve viver com menos. E de seguida levar o cliente a comprar mil e um produtos sem necessidade nenhuma. No entanto, o espaço é estudado, o cliente é ouvido e o sistema de organização é configurado. E, no fim, se fizer sentido comprar aqueles dois acessórios simples que vão facilitar o uso desse sistema, compra-se. Simples.

Como em tudo na vida há que fugir a extremismos e radicalismos.

E por agora fico-me por aqui. Muito mais há que dizer deste livro e deste método. Deixo de lado por agora a parte dedicada à dobra das roupas e à “alegria” emanada pelos objectos, por exemplo. Fica para outras viagens.

About the Author:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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