Com um dia de atraso (esta semana está concorrida), nesta Quarta Farta chegamos ao nosso oitavo RE: Reparar!

Reparar

Um dos grandes problemas relacionados com o ambiente está directamente relacionado com a quase impossível reciclagem de todos os materiais e consumíveis dos actuais electrodomésticos e outros engenhos eléctricos que temos nas nossas casas.

Temos televisões plasma do tamanho de uma sala, telefones ultra-tecnológicos com peças demasiado complexas que se tornam obsoletos após 3 meses, máquinas de lavar roupa que duram 5 a 10 anos em vez dos 30 anos do tempo das nossas avós, torradeiras, jarros térmicos, máquinas de café que saem aos milhares das linhas de produção para durar só até àquele momento em que achamos que merecemos uma coisinha melhor porque mudamos de casa / temos filhos / casamos / ganhamos mais dinheiro e pouco a pouco o planeta vai ficando sem espaço para tanta evolução tecnológica e tão pouca reflexão sobre as consequências dessa corrida que é a human race.

Este talvez seja um dos problemas mais graves relacionados com o ambiente, com menos soluções e uma das batalhas mais difíceis de travar, porque fomos e somos educados, indoutrinados, induzidos todos os dias pelos media, pelos outros, por nós mesmos e pelos nossos medos, frustrações e sede de compensações a consumir freneticamente e inevitavelmente a deitar fora como um ritual quotidiano automatizado. Nunca ninguém nos veio dizer para fazer um pouco mais de ginástica mental para chegar a outras soluções. As gerações dos nossos avós faziam-no, sem ter uma atitude ecológica, mas a sociedade que temos construído ao longo destas últimas décadas leva-nos a termos cada vez menos em conta a sabedoria dos mais velhos e a criarmos cada vez mais vícios e dependências nos mais novos.

Ninguém pode atirar pedras ao telhado dos outros neste assunto. Todos nós, num momento ou noutro, deitámos fora irreflectidamente aquele leitor antigo de cassetes que estava no sótão há uns tempos e que entretanto teve de ser limpo para fazer espaço para mais tralha. Costuma dizer-se que aquilo que os olhos não vêem, não aflige o coração. É esse o grande problema: desde o momento em que atiramos aquele velho aspirador para o lixo, sentimo-nos mais leves e aliviados como se o problema se tivesse resolvido por magia com aquele caixote do lixo tão conveniente. O único senão é que o problema não deixa de existir, fica ali, à espera de alguém que o resolva e enquanto o tempo passa, é a natureza (e outros que não conhecemos em países distantes) quem paga as favas e quem assume a tarefa hercúlea e impossível de biodegradar algo que não foi concebido para ser biodegradável.

Apesar de nem sempre concordar com a maneira exagerada e um tanto ou quanto extremista e simplista de passar os seus conceitos, concordo com o sentimento de base que move o projecto Story of Stuff que tem-nos trazido ao longo dos anos muitos filmes do género “abrir-os-olhos” e que tanto caracteriza e acompanha esta era da electrónica desenfreada. Este video é um dos muitos que poderá encontrar no site deste projecto, intitulado “História dos Equipamentos Electrónicos” (Story of Electronics):

Para a próxima semana, falarei mais um pouco deste RE: nesse artigo constará uma lista de acções a tomar e um pequeno flow chart que lhe permitirá chegar a soluções que prometem uma resolução verdadeira do problema.

Porquê dedicar mais do que artigo a este RE em específico e não ter feito o mesmo com os outros? Porque de entre todos os REs de que temos falado até agora é este o que tem maior impacto, o que está intrinsecamente ligado com a maneira como fomos educados pelo consumismo e que vai à matriz do problema, modificando atitudes. Reparar não implica só o mero acto de dar uma nova oportunidade ao seu aparelho mas também reparar o que nós somos, a nossa educação, plantando sementes na nossa sociedade para uma mentalidade mais verde, menos preguiçosa e mais consciente, através da prática da não compra, da rebelia contra o consumismo sem sentido, pela reutilização das mentalidades em tempos de guerra, pela partilha do que nós temos e somos com os outros à nossa volta.

Fique atento ao artigo da próxima Quarta!

Boa Quarta e Boas Reparações!

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