Organização e os sucedâneos

Por vezes vejo por esse facebook fora muitas publicações sobre organização, praticamente todos os dias. É algo que muito me apraz porque é efectivamente um dos temas que mais me apaixona. A única coisa que me entristece deveras quando leio essas publicações é a constatação da falta de cuidado a lidar com esta temática. Confunde-se a organização com outras práticas que embora possam ser complementares à organização, não são, de todo, um substituto à mesma.

Daí ter decidido falar um pouco sobre a minha visão pessoal sobre o que é e o que não é organização, baseando-me na minha experiência e no conhecimento adquirido.

Organizar não é Arrumar

Esta é talvez a mais comum. Todos os dias deparo-me com imagens de gavetas bem arrumadas ou sapateiras com muitos, inúmeros sapatos lá dentro, esteticamente bem colocados. Mas estas mesmas gavetas advinham variadíssimos problemas, entre eles, a ausência total de um sistema prático e adequado  que possa ser usado no dia-a-dia, com as dificuldades reais e limitações que isso implica.

A organização precisa obviamente de arrumação, mas essa arrumação tem de ter por base um sistema. Esse sistema tem de ter em conta o espaço, a acessibilidade e o número de objectos, que, em muitos casos estão em demasia. Sobretudo porque no acto de arrumar não há destralhe. Por conseguinte, não há uma selecção crítica, nem uma tomada de decisão, características essenciais do acto de organizar.

Organizar é Tomar Decisões

Nenhum processo organizativo pode prescindir de uma tomada consciente de decisões, grandes ou pequenas. Quando organizamos o nosso orçamento semanal para as compras de casa, seleccionamos o que queremos, descartamos o que não precisamos, tudo para que o orçamento seja minimamente respeitado.

Essa selecção consciente e premeditada é uma tomada de decisão, imprescindível para o processo. E com a tomada de decisão vem também a assertividade que não é mais do que o saber aquilo que se quer e aquilo de que se precisa com a justa determinação.

Organizar não é Comprar Acessórios

Claro que não quero com isto dizer que a compra está completamente banida do processo organizativo. Nada disso. Quer simplesmente dizer que não é um fim a si mesmo. O acessório de organização, que pode ser uma caixa, um armário de gavetas ou um conjunto de etiquetas coloridas, tem um propósito e uma vertente prática importantes.

A componente estética também está lá (claro!). Isto porque é também importante que gostemos visualmente do que nos rodeia. No entanto, é talvez o aspecto mais secundário em termos de prioridades. Quando enveredamos pelo caminho da organização e só conseguimos pensar no que o Ikea tem para oferecer em termos de acessórios, algo não está bem. Reveja as suas prioridades e planeie as suas compras, caso precise mesmo de as fazer.

Organizar é Sair da Zona de Conforto

Quando optamos por organizar, estamos a reinventar um espaço, um hábito, uma rotina. Em última análise, estamos a reinventar-nos, porque tudo aquilo que nos rodeia não é mais do que o espelho sofisticado do que somos. Organizar implica olharmos para dentro de nós. Perceber o que precisa de ser mudado, o que devemos acrescentar, o que devemos retirar. Em consequência, os nossos espaços, as nossas papeladas, as nossas decisões externas irão mudar também.

E este é um acto de coragem sempre, algo que nos faz andar “por mares nunca dantes navegados”. Mas se não o fizermos como podemos descobrir a Índia?

Organizar não é Moda

Não devemos abraçar esta prática só porque toda a gente o faz ou porque está escrito num livro de uma celebridade famosa. Organizar não é uma dieta. Não é um conjunto de exercícios físicos para preparar o corpo para o verão. Organizar deve fazer parte dos nossos hábitos diários, sempre. Um estilo de vida perene. Porquê? Justamente porque implica tomada de decisão e assertividade. É algo que nos faz crescer, nos faz mudar. Faz com que exercitemos o pensamento crítico, impele-nos à mudança, à melhoria contínua e a descobrirmos novas potencialidades em nós. Como pode ser moda? Como pode ser passageiro? O auto-crescimento é algo que faz parte intrínseca de qualquer ser humano. A organização tem um espaço honroso e crucial nessa evolução.

Organizar é Educar e Influenciar

Já pensou na influência que os seus actos e a sua atitude tem nas pessoas que o rodeiam? Temos em nós a centelha divina de fazer acontecer nos outros e, na maioria das vezes, não nos apercebemos. Esquecemo-nos de nós nos outros e vemo-nos feitos ilhas isoladas perdidas na azáfama dos afazeres e no corre-corre autoritário dos ponteiros do relógio. Sim, nós temos o condão de influenciar e moldar os outros. Sobretudo tratando-se de crianças, sequiosas de conhecimento e experiência.

De cada vez que embarcamos num processo organizativo, estamos a mandar mensagens aos outros. As crianças, atentas a tudo (nunca pense o contrário!), tendem a imitar-nos no que fazemos e dizemos. Da próxima vez que arrumar o armário de tupperwares, faça-o com o seu filho e observe o que faz ele a seguir. É um efeito de tal maneira arrebatador que põe o efeito das asas da borboleta da teoria do caso num chinelo. Agora imagine esse efeito ao cabo de semanas, meses, anos… Se quer começar por organizar os outros, comece por si.

 “Seja a mudança que quer ver acontecer no mundo!” — Mahatma Gandhi