Receita de Malas à la Accarpio

Malas, Miúdos e Maresia

Ahh o charme das Férias! Quem é que por esta altura não anda já a sonhar de olhos abertos? A imaginar-se naquela praia fantástica de areia fininha e branca e água transparente? E 3 miúdos cujo único propósito é o de criar repetidas simulações de tornados de areia?

O cheiro a maresia já se sente e também o das malas que ficaram fechadas durante o resto do ano, ansiosamente à espera de serem usadas. Esta fase de recta final antes das férias é uma verdadeira prova da nossa resistência e do nosso compromisso. É uma forma de dizer “Tens o que é preciso?” ou “Será que aguentas?”. Em jeito de logística militar, vemo-nos de repente atirados para um universo paralelo em que cuecas, meias, fatos de banho e sandálias que já viram melhores dias são senhores da nossa atenção e comandam os nossos sentidos.

Só os mais bravos conseguem passar este teste de endurance e chegar ao fim com o mesmo entusiasmo sem acabar a pensar “Isto vai ser bonito, vai!”, “Vai sobrar para mim!” ou “Internem-me!”. É um sentimento complexo e misto de grande excitação pelo que aí vem e temor pelo que aí pode vir. A nossa mente dá uma volta de 360 graus com um écran panorâmico em frente da nossa real tromba que nos mostra em poucos segundos tudo o que pode correr mal e bem, numa espécie de teaser trailer com muitos spoilers.

A melhor forma de chegarmos vencedores e ganharmos aquele aplauso tão familiar que só ouvimos na nossa cabeça e nas sitcoms é através desta minha receita que vos quero aqui e agora divulgar para vosso deleite e sobrevivência da vossa sanidade mental.

Receita de Malas à la Accarpio

Ingredientes:

  • 2 Malas;
  • 3 Crianças;
  • 1 Progenitor com crises existenciais;
  • 1 Mini no frigorífico;
  • 1 Barra de chocolate 85% sólidos de cacau;
  • 3 Armários cheios de roupa ansiosamente à espera de serem revelados ao mundo;
  • 1 Atitude de saudável perplexidade perante um monte de roupas que não pensávamos ter;
  • 1 Máquina de lavar roupa com pensamentos suicidas pelo mesmo motivo;
  • 1 Estendal em risco de hérnia discal;
  • 1 Conjunto de objectos esquecidos por casa que passaram à categoria “indispensável”;
  • Etiquetas;
  • Caneta;
  • Papel;
  • Muito Optimismo;
  • Percepção espacial incorrecta da verdadeira capacidade de ocupação das nossas malas;
  • 1 Balança quase a dar de frosques.

Preparação:

Alista-te!

No princípio era a lista. E a partir da lista tudo se criou.

Pega num papel e caneta e começa a apontar o que queres levar por categoria, por pessoa e por mala. Respira fundo. O melhor é mesmo usares uma lista em forma de tabela, seja porque as colunas nunca irão deixar de estar na moda, seja porque isso te irá permitir assinalar o que já está dentro da mala ou não ou, no caso da roupa, se ainda está a ser lavado e passado.

Mexe tudo com a dose certa de paciência e uns pós de optimismo. Agora abre o armário e tira cá para fora as malas que vais usar. Solta um “ai” de leve desespero e algum descontentamento perante 2 malas que estiveram muito tempo guardadas e que agora têm um leve cheiro a formol e mofo que nos lembram as farmácias de antigamente e aquela vizinha excêntrica com 30 gatos em casa. Limpa e acondiciona bem essas malas. Toma o anti-histamínico que entretanto te esqueceste de tomar e que te levou a soltar espirros suficientes para pôr a vizinhança num raio de 5 quilómetros em pleno sobressalto e para receber uma chamada de um serviço de exorcismo ao domicílio.

Verifica o peso que tens de levar em cada mala nos bilhetes da Ryanair que ainda não imprimiste num acto de velado desdém para com uma empresa que desprezas pelo péssimo serviço ao cliente. Mas que te faz poupar uns cobres valentes por viagem.

Coloca a lista do que vai em cada mala com um clip ou um grampo de documentos. Usa também post-its de cores para aquelas coisas que faltam e que estão a ser preparadas para dar entrada na mala.

A primeira categoria: a nossa roupa!

Agora chegou a hora de olhar para os armários e começar a escolher o que levar. Retira 75% da roupa que está no armário. Contempla o saque que tens à tua frente com um sentimento de improvisa e vã ilusão, dizendo:

”Ah mas eu vou usar isto tudo!”

“Mas é claro que isto vai caber tudo na mala!”

“Os da Ryanair nem verificam assim tanto as malas…”

Volta a contemplar o monte de roupa que entretanto transformaste numa réplica da Devil’s Tower do filme “Encontros Imediatos de Terceiro Grau” mas agora com os pés bem assentes na terra e com a realidade à frente dos olhos. Diz finalmente, com convicção: “Só vou precisar de 5 mudas de roupa”. Isto se fores durante 5 dias para fora e não tiveres forma de lavar a roupa. Ajusta a quantidade de mudas de roupa tendo em conta estes dois factores:

  • dias que vou estar fora;
  • possibilidade ou não de lavar roupa;
  • situações formais e informais.

Repete para ti várias vezes que não precisas de tanta coisa e que vais acabar por ter problemas com a Ryanair.

Culpa a Ryanair de todos os teus problemas, inclusivamente da entrega da declaração de IRS de 2015 em atraso.

Depois de finalmente teres decidido o que vais colocar na tua mala, deixa um ultimato à tua cara metade para que escolha o que vai levar, sob pena de acabar por ir sem nada e fazer parte do cast da última produção da Broadway da peça “O rei vai nu!” (sendo que aqui “rei” tem género neutro).

A segunda categoria: a roupa deles!

Agora dirige-te ao quartos dos teus filhos. Entretanto, repete estas palavras em forma de ladainha “Vais conseguir, vais conseguir, vais conseguir!” Repete a mesma operação que fizeste para a tua roupa. Desta vez perde tempos infinitos a contemplar a roupa dos teus filhos, soltando de vez em quando um “awwwww” de cada vez que os imaginas com as várias toilettes.

Acorda.

Decide levar 5 mudas de roupa para cada um, mais uma vez dependendo dos mesmos 3 factores de há bocado. Volta atrás na tua decisão pelo menos 3 vezes mas no final, activa a tua parte racional e diz “O importante é estarmos juntos não o que levamos vestido!”. Regozija-te com a tua capacidade de encaixe. Perde um minuto a indagar se não serás parente do Spock, por tão racional que és.

De seguida, pega nas mudas de roupa que seleccionaste e inclui em cada uma delas cuecas, meias e cuecas de back-up. Usa o zip lock bag method, que é como diz, enfia cada muda em sacos do Ikea (aqueles de sandes com fecho). Escreve nos sacos, especificando o dia ou a ocasião em que vai ser usado. Não te esqueças de incluir a muda de back-up sobretudo para a criançada.

Agora enfia tudo na mala em jeito de tetris, fazendo o possível para encontrar um equilíbrio entre a funcionalidade e o aproveitamento de todos os espacinhos da mala. Sê criativo/a. Contempla as duas malas com a primeira categoria (roupa) já lá enfiada. Elogia-te em pensamento por esta etapa bem conseguida e imagina-te num primeiro lugar no pódio das malas bem preparadas. Mais uma vez aplauso imaginário.

Sapatos há muitos? Nem pensar!

Depois lembra-te dos sapatos para cada pessoa. Concede-te 3 minutos de ataques de pânico e perguntas tipo “Porquê eu?” e “Mas não existe já um serviço que me ajude nestas tarefas?”. Entretanto encontra um site todo catita chamado “Organiguru” com página facebook e tudo!) e descobre que afinal há quem faça esse serviço. Pondera a possibilidade de, para a próxima, optar por este fabuloso serviço. Por exemplo, quando começar o massacre da preparação para as aulas. Ou tiveres que finalmente enfrentar a tua garagem.

Deixa-te de divagações (boas mas sempre divagações) e continua a tua senda. Lembra-te que apesar dos bons quilómetros que fizeste com o teu calçado, em boa verdade, só precisas de 3/4 tipos diferentes de sapatos (dois pares de sandálias, sapatilhas e eventualmente botas de montanha, no meu caso – mas depende muito do sítio para onde se vai).

Utiliza o mesmo raciocínio para os teus filhos. Lembra-te, no caso deles, de experimentar todo o calçado antes de se decidir o que levar. Isto se tiver acontecido mais um daqueles “saltos” que nós pais bem conhecemos, tipo desde ontem.

(A minha filha já calça 38. Tenho que lhe retirar a hipófise.)

Mais uma vez olha para as malas. Muito cheias. Calibra e vê o que poderá estar a mais.

De repente faz-se luz: pegas naqueles sacos de vácuo e enfias tudo o que é toalhas de praia e outros itens igualmente grandes dentro deles e ta-da! Conseguiste arranjar espaço extra na mala. Dás-te ao luxo de estar pelo menos 5 minutos a reflectir sobre a tua genialidade. Já não és só parente do Spock mas o Albert Einstein na certa também deverá ter-se metido com alguma bisavó tua há uns anos largos. Logicamente.

Produtos de higiene, a nemesis das companhias áereas

De seguida, debruça o teu olhar sobre os possíveis produtos de higiene a levar. Esforça-te por reduzir mesmo ao mínimo o que vais levar. O ideal é teres duas bolsas (uma para os adultos, outra para as crianças) e elas servirem de limite ao que podes levar. Verifica o que pode ser comprado no local onde irão ficar durante as férias.

Se forem para um parque de campismo, costuma haver supermercados com produtos próprios para quem faz campismo, com embalagens de champô de tamanho reduzido, por exemplo. Se tiveres que levar algum produto na mala de cabine (lembras-te das medidas: 55 X 40 X 20 / 10 kg), coloca tudo em embalagens de 100 ml num saco com a capacidade de um litro. Imagina-te num cenário de super-espiões a tentar passar na segurança do aeroporto com a tua astúcia e elegância natural.

Lembra-te de acondicionar devidamente os teus produtos de higiene de maneira a que não haja fugas de espécie alguma. Ora vê este video a esse respeito.

Outras categorias que faltam

Finalmente aplica sempre a mesma bitola a todas as outras categorias: equipamentos electrónicos, livros, jogos, brinquedos, etc.

Reflecte por um pouco sobre a quantidade infindável de tralha que tens em casa. Precisas mesmo de resolver isso, não é? Volta a pensar no tal serviço maravilhoso que descobriste há pouco. Aponta na agenda uma data em que vais contactar essa tal de Rita Accarpio da Organiguru. Parece ser uma boa profissional.

Selecciona o que precisa de ir contigo na mala de cabine, tipo coisas importantes como:

  • artigos frágeis;
  • equipamentos electrónicos indispensáveis como o telefone ou o iPod;
  • brinquedos e jogos para evitar que os teus filhos transformem a viagem de avião numa versão aérea dos Gremlins (sobretudo não lhes dês agua nem de comer depois da meia-noite);
  • uma muda de roupa de back-up (nunca se sabe);
  • o essencial para a viagem, incluindo bilhetes de avião, cartões de crédito/débito, cartões do cidadão, etc;
  • tudo o que for valioso e que se possa perder.

As crianças também sabem fazer coisas

Entretanto, de repente, ocorre-te grande ideia de génio: os teus filhos até já sabem fazer umas coisitas.

Vê na tua lista o que podes delegar para a criançada. Pensa em coisas simples e práticas que possam ser feitas por eles sem precisar de grandes acertos. Reflecte ainda sobre isto:

  • crianças a partir dos 8-10 anos já têm a capacidade de escolher mudas de roupa sozinhas;
  • se não fizerem as coisas de forma perfeita, não cai o Carmo nem a Trindade (já fui verificar e ainda lá estão);
  • podes sempre monitorizar, orientar e aconselhar, mas deixa-os falhar as vezes necessárias;
  • pode parecer-te cruel mas se eles sabem fazer, provavelmente não é um bicho de sete cabeças (o número de cabeças é directamente proporcional à tua ansiedade e atitude perante a tarefa);
  • tudo pode ser um jogo, com a motivação certa;
  • promessas só se for de algo que possam fazer juntos a seguir se não ganha contornos de suborno.

Quanto a resmunguices dos membros da prole naquela famosa idade mobilística também há uma solução: ou tratas da tua roupinha ou vais fazer parte da tal produção da Broadway…

Tudo o que começa tem um fim

Finalmente, recosta-te e observa o trabalho concluído. Tens tudo pronto, bilhetes que entretanto imprimiste, carteira e malas de cabine aviadas e 2 malas de porão cheias e prontas a embarcar. Houvesse um Nobel das Malas tu estarias em primeiro lugar na lista.

Até dominas esta cena como uma pro, não é verdade?

Abre o frigorífico e goza os espólios desta batalha já ganha. Que é como quem diz: abre-me essa mini e essa barra de chocolate e goza-os bem. Tu mereceste.

E quem diz mini diz um copito de vinho do Porto Kopke Tawny 20 anos. Também dá.

Mexe bem e está pronto a servir.

Boas férias!

Sobre o Autor:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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