O Tema Inevitável

É inevitável, não é? Estás para ía feita Professional Organizer a pregar o desapego, o destralhar e a não-compra e depois aparecem estas feiras do desconto e da compra desvairada e tu o que fazes? Ficas quieta? Sentada?

Não faz o meu estilo. Desculpem-me, mas vou ter que dar os meus dois cêntimos. Até dá jeito que tenho andado com trocos a mais. Considerem este artigo um “saldo” (lancei outro há bocadinho). Para não destoar. De repente andamos todos com ganas de nos metermos em supermercados e centros comerciais numa sexta-feira chuvosa de um Novembro sem chuva com mais de meio milhão de pessoas a fazer-nos companhia. Acabas por não te conseguir conter, porque afinal de contas, é só neste dia. Depois acabou.

Quando dás por ela estás feito juguete de uma enorme jogada de marketing com menos dinheiro na carteira e uma quantidade infindável de coisas que, tal como a pastilha elástica, após as primeiras mastigadelas, perde o sabor. E ainda nem estamos no Natal.

 

E porquê? 

Não me levem a mal. Eu entendo que com tanta mensagem que nos mandam para o e-mail, para o telemóvel e para a caixa de correio, acabamos por ceder e arranjar uma lógica que esteja por detrás de uma ida ao centro comercial nestas condições. Imagino que até se poupe dinheiro. Imagino também que até se façam grandes negócios.

Agora pára para pensar um pouco. Se não houvesse Black Friday o que terias feito? A uma sexta-feira ao final da tarde? Terias ido a um centro comercial? Terias comprado alguma coisa? Como te terias sentido?

O cerne da questão não é a situação em si, mas a forma como reagimos à mesma. Por vezes falta uma ponderação antes da decisão. Antes da compra. Esta espécie de feriado do desconto e da liquidação joga com a sensação de imediatez, juntando uns pózinhos de efemeridade às ofertas. Atrai o comprador incauto com a premissa de que “amanhã-não-há-mais”. Joga também com essa nossa mania de queremos estar sempre com os outros da nossa espécie: se não formos, não somos parte do rebanho; se não formos, ficamos de fora; se não formos, nem sabemos o que vamos perder. E tem que ser naquele momento. Isto para não dar tempo a grandes ponderações. Estrategicamente.

O que nos traz a ponderação? Traz-nos lucidez e consciência. Como se obtém? Através destas perguntas “poderosas” que vais fazer directamente ao objecto do teu desejo transaccional:

  • Se fosse noutro dia qualquer comprava-te?
  • Preciso mesmo de ti?
  • Tenho já outras coisas parecidas contigo lá em casa?
  • A minha felicidade depende da tua compra?
  • Passo bem sem ti?
  • Quanto é que eu vou poupar?
  • Quanto tempo vou gastar?
  • Quanto tempo em família vou sacrificar?
  • Vai valer a pena?
  • Que mais valias vou ganhar com isto?

Depois de fazeres estas perguntas poderás optar por ir na mesma, mas pelo menos vais em consciência, porque precisas, porque te organizaste para ir. Não porque vai toda a gente. Não porque “queres ver o que há”.

 

O outro lado

Sim, nestas coisas há sempre dois lados. Sabes o que fiz antes da Black Friday? Muita pesquisa. Lembras-te daquele artigo em que te falei que tinha estado um mês sem smartphone? Sim, este artigo. Nessa altura o meu telemóvel de quase 10 anos queria entrar em férias e agora parece estar cada vez mais perto de uma reforma antecipada. Preciso, portanto, de um smartphone novo. Com uma nova câmara, com uma interface que funcione, que não vá abaixo, etc. Em suma, é uma das minhas ferramentas de trabalho e faz-me falta. É essencial para comunicar, tirar fotografias nas minhas sessões, entrar em contacto com clientes, familiares, etc.

“Mas o que é que isto tem a ver com a Black Friday?” Estrategicamente falando, muita coisa. Como preciso de um smartphone, comecei a fazer pesquisa, a ver modelos, a fazer contas e a ponderar a compra. Sim, eu sei que é só um smartphone. Mas para mim é uma compra a fazer com cautela, mais nem seja pelo que se costuma gastar nestas coisas. Havendo tempo, posso esperar pela altura melhor. Que neste caso poderia coincidir com a fatídica sexta-feira preta.

“Ah mas afinal então tu também foste à Black Friday!” Não exactamente. Tinha uma necessidade pre-existente e neste caso a Black Friday era um mero instrumento de compra. Que acabei por não utilizar porque para o que queria em concreto não havia desconto que valesse (algo que verifiquei nas lojas online, no conforto da minha casa). Paciência.

O que quero eu com isto dizer? Que o meu conselho para este tipo de dias de canto de sereia é o seguinte: não compres pelo saldo, mas compra porque o que precisas por acaso está em saldo. Vês a diferença? Aproveita a situação mas não te deixes manipular pela situação.

 

Consequências a longo prazo

Qualquer acção como a dos últimos dias que nos conduza ao consumo desenfreado e não consciente, não nos leva a bom porto, em nenhum sentido. Basta ver todas as imagens que passaram nos nossos écrans sobre estes eventos para perceber que não só estamos a trilhar um caminho que irá acabar por ser devastador para nós e para o ambiente, como espelhamos nessas atitudes o mais profundo vazio, um vazio que só conseguimos preencher comprando e consumindo.

Porque seguimos modas ou simplesmente porque não nos basta. Porque já não conseguimos viver de outra forma, inculcados que estão nos nossos hábitos todos os artifícios da compra e venda. E neste ciclo não paramos nunca para pensar no porquê de agirmos assim, no que estamos verdadeiramente à procura. No que nos falta.

E procuramo-lo nas prateleiras, nas estantes e nos stands, por entre etiquetas e cartazes, na vã esperança de ficarmos finalmente saciados. Porque nos é mais fácil matar a sede com algo que nos é externo do que procurar a solução dentro de nós.

Estamos a caminhar inexoravelmente para um sem retorno e não nos apercebemos ou não queremos aperceber. A situação é séria. Pelos nossos olhos todos os dias vemos passar documentários, imagens, videos em que nos é clara a situação em que estamos a deixar o planeta com este consumo. Os nossos mares perderam a cor e ganharam a textura de um cemitério de plástico. Vemos fábricas atoladas de homens, mulheres e crianças sem nome, sem cara e sem esperança que trabalham horas a fio para satisfazer esta nossa sede interminável. Testemunhamos dia após dia guerras, ataques, pobrezas e devastações alheias do outro lado do planeta, pautados pela nossa impotência. Mas os mesmos olhos que caminham pelas prateleiras à procura do melhor preço são voluntariamente cegos a estas realidades.

Preferimos não ver, optamos por não ouvir, nem queremos falar.

No meio disto tudo vivemos e perdemo-nos no assoberbamento que nós próprios causámos, paradoxalmente cada vez mais sozinhos e distantes. E ninguém o diz melhor do que Palmer Joss no filme Contact:

“The question that I’m asking is this: Are we happier as a human race? Is the world fundamentally a better place because of science and technology? We shop at home we surf the web.. but at the same time we feel emptier, lonelier, and more cut off from each other than at any other time in human history. We’re becoming a synthesized society…. In a great big hurry to get the next……

We’re looking for meaning. What is meaning? We have mindless jobs, we take frantic vacations, deficit finance trips to the mall to buy more things we think will fill these holes in our lives. Is it any wonder that we’ve lost our sense of direction?”