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Em busca de um Natal diferente e sustentável

Quase a chegar

Nesta altura do ano dou por mim a lembrar-me daquela cena inicial do último filme da saga Shrek e a dizer: “Mas estamos outra vez no Natal? Não foi no ano passado?” Era caso para chamarmos o Einstein para beber uns copos com a gente e lançarmos umas abébias sobre a relatividade do tempo e de como a cerveja alemã é bem melhor do que a cerveja suíça.

Isto para dizer que, quando damos por ela, mal tivemos tempo para tratarmos de todos aqueles pormenores de que nos lembramos na nossa infância e que traziam os pózinhos de magia a esta época.

De repente, dou por mim a cogitar e a chegar à conclusão de que há momentos ao longo do ano em que me sinto mais calma e mais em sintonia com o resto do pessoal (amigos e família) sem aquele enorme stress e a esmagadora expectativa de que tudo tem de ser perfeito para ser Natal. Daí que ache, cada vez mais, que o Natal deveria ser em Julho, em frente a uma grelha e uma cerveja na mão.

Natal no Verão

É que estamos todos mais relaxados no verão não é? Ou sou só eu? Nesta altura andamos todos vestidos às camadas a vociferar contra o frio como se fosse de todo impossível que o haja nesta época (“Como é possível? 4 graus em Dezembro?”) e a ter que lidar com cenas como trabalho, escolas, filhos e finais de ano que normalmente trazem a tragicomédia que é o orçamento de estado e o aumento da luz e do preço do pão.

Natal no verão. É a minha sugestão.

Enquanto isso não acontece, toca então a festejar o solstício de inverno, o dia mais curto do ano, e, ao mesmo tempo, o nascimento da figura mais emblemática do Ocidente (mesmo que este seja simplesmente Isaac Newton, para quem não é crente).

Se estiveres naquela fase em que já enjoaste de tanto consumismo e queres mesmo fazer a diferença fazendo aquele tipo de Natal que grande parte da tua família acha muito new age, então este artigo é para ti.

Bora lá então lançar os dados para um Natal diferente e também sustentável.

Jogo do amigo secreto

Esta é bastante conhecida, lógica e fácil de seguir. Trata-se mesmo de mudar as regras de jogo e estipular que não se irá receber mais do que uma prenda por pessoa. Escreve-se os nomes de todos em papelinhos, distribui-se pelas pessoas e cada um fica incumbido de comprar uma só prenda. O que poupa uns cobres valentes a cada família e reduz ao mesmo tempo o impacto ambiental.

Podem incluir-se as crianças neste esquema ou não, dependerá de família para família e do grau de desapego que a criançada tiver às prendas.

Este jogo até se torna engraçado porque cria laços. Põe as pessoas a pensar naquela prenda específica para aquela pessoa e retira da sua balança o assoberbamento de ter que pensar nas outras prendas todas. O que por vezes leva à compra pela compra. Porque está à espera. Porque é suposto. Porque tem de ser. Porque senão parece mal. Neste caso, a pessoa visada não sabe quem vai dar, portanto parte dessa expectativa é desanuviada.

Respira fundo.

E o melhor disto tudo é que a prenda pode ser qualquer coisa. Comprada, feita à mão. Até com os teus filhos, olha-me só estes exemplos:

Também tens excelentes exemplos do que podes fazer aqui e aqui. Ou pode ser uma prenda não tangível. Mas já vamos falar sobre isso a seguir.

Mudar o paradigma

Com “a seguir” queria dizer “agora” (foi só saltar o título). Vou lançar-te um repto. Porque é que temos de oferecer prendas físicas? Vai pensando que daqui a bocado volto a perguntar-te. Vou contar-te um segredo que já mencionei a algumas pessoas. Ok, a muitas. Na verdade, não é segredo nenhum. Mas agora estás a ler isto porque viste a palavra segredo e ficaste interessado. Não te preocupes, não te vou desiludir.

Já há praticamente dois anos que não damos prendas aos nossos filhos. Pelo menos, prendas tangíveis. Passo a explicar: optamos por escolher um evento que normalmente, no dia-a-dia, não fazemos. Pode ser ir ver um espectáculo ou uma ida ao teatro. Inicialmente achei que não iria pegar, mas agora já percebi que até preferem este nosso miminho. E assim se passa um bom tempo em família. Não é muito, mas é um bom substituto da prenda física que se costuma dar por tradição ou hábito.

Ok, eu sei que cada família tem as suas tradições. Esta é nossa. O que proponho aqui mais do que outra coisa é simplesmente isto: muda o paradigma. Vê as coisas de outra perspectiva. Não faças mecanicamente só porque é esperado que o faças. E depois, mais importante, ainda falem, debatam, discutam em família o que são os objectivos da mesma. Qual é o vosso tipo de Natal? O que vos identifica? O que é a vossa cara? Independentemente do que vos dizem as pessoas de fora.

E, pouco a pouco, parecendo que não, evitas comprar mais brinquedos que vão para um canto depois de uma semana (ou que se partem logo na primeira noite) e fazes um favor ao ambiente. Aquele ambiente que nós teimamos em sobrecarregar com coisas em catadupa no nosso dia-a-dia, sem reflectir.

Que brinquedos?

Se optares pelos brinquedos, posso propor-te o seguinte? Duas coisas. Opta por brinquedos que sejam amigos do ambiente, como estes:

E que esses brinquedos sejam também úteis, duráveis, educativos e inócuos em termos de substâncias perigosas (“ça va sans dire”).

Em segundo lugar, destralha os brinquedos que têm em casa e façam uma doação. É uma excelente oportunidade para dar a quem não tenha e para ensinares os teus filhos a tomarem consciência do que têm e o que podem fazer para melhorar o mundo em seu redor.

Já viste esta campanha da Pegada Verde?

Embrulhos há muitos

Muitos e demasiados embrulhos. Não te faz impressão? Aquele papel todo na sala enquanto desembrulham as prendas na hora h. Isto para não falar na quantidade de caixas, embalagens e outros invólucros que vemos um pouco pelas lojas deste país nesta altura. Para te aperceberes do grande volume de desperdício e lixo que é produzido, vai ver os caixotes do lixo nos dias a seguir à véspera de Natal.

É que esse lixo vem com consequências e daquelas a longo prazo. Das que estão a afectar o nosso planeta neste momento, sobretudo os nossos mares e oceanos. Ainda há pouco tempo vi esta notícia e fiquei estupefacta. Como é que é possível?

Por esses motivos e porque efectivamente não faz qualquer sentido esse desperdício (andas a gastar dinheiro num papel que serve literalmente para rasgar e deitar fora), este ano deixa o papel de embrulho de parte e utiliza sacos de pano como estes aqui que são fabulosos! Alternativamente porque não aproveitas os papeis que tens em casa? Ou outros materiais de embalagem que tenhas guardado sem motivo aparente e que agora até podem ter um final feliz? Ficam aqui algumas sugestões:

“Mesa farta.” Porquê?

Esse é outro dos grande desperdícios dos nosso tempos: comida. Dos mais injustos e cruéis. Daqueles que nos fazem mesmo, mesmo pensar nos valores que queremos ou escolhemos viver no Natal. Vê se faz sentido para ti: ter tudo do bom e do melhor em cima da mesa na altura do grande jantar de Natal. Faz-se sempre um pouco a mais porque não vá o apetite aguçar. Só que se exagera nas quantidades, exagero esse que provém das nossas desmesuradas e irrealistas expectativas.

Ele é o bacalhau, as verduras todas e mais algumas e pelo menos 3, 4 ou 5 tipos de doces. E queijo da serra. E aperitivos. E bebidas.

Não me levem a mal, eu gosto de todas essas coisas. E já estive em mesas assim, sem fazer ideia do desperdício em que estava a participar de forma voluntária. E depois pouco a pouco, foi-se calibrando até se chegar a um ponto em que tudo se aproveita, tudo se gasta, tudo se transforma, nada se deita fora. Lavoisier está radiante.

Não é bom? Quando sabemos que, sim, vamos comer mais do que deveríamos e mais do que é habitual, mas que pelo menos não vamos contribuir para o desperdício exacerbado.

Deixo aqui a ressalva que nem todas as famílias se vêem no quadro que pintei. Eu baseio-me muito na minha experiência e nas minhas vivências. Sei que há quem opte por outro tipo de pratos, quem seja vegetariano ou vegan, quem tenha outras tradições.

Vegetarismo e outras opções à mesa

Como é natural, tenho a minha opinião sobre esse assunto, mas este não é um artigo sobre vegetarianismo/veganismo vs carnivorismo (?). Prefiro apelar mais ao consumo em consciência. Aquele que não segue modas, mas factos e evidências. Que se actualiza. Mas essa é uma conversa que vamos deixar para outro artigo.

Até porque, pelo menos no meu caso, vou sempre passar o Natal a duas casas diferentes (ano sim, ano não): a dos meus pais ou a dos meus sogros. Que têm consumos muito diferentes. E em nenhuma delas tenho o direito de me impôr. Posso propor, de forma assertiva, que se mudem alguns hábitos, mas se é verdade que o Natal é tempo de harmonia, a palavra respeito entra aqui com mais peso. Há que respeitar outros hábitos que não são os nossos. Daí que o meu conselho incida mais sobre as quantidades e o aproveitamento de restos.

E se porventura houver algum erro de cálculo (prerrogativa dos seres humanos) e sobrar comidas há sempre quem possa aproveitar como é o caso desta associação.

Resmas e resmas de decorações

Ainda no outro dia entrei num supermercado e deparei-me com um espectáculo de luz e som que preenchia grande parte da zona da entrada. Quase não se conseguia passar. Achava eu que estava num concerto do Tony Carreira. Ou do Rudy Perez.

Mas não. Era simplesmente um supermercado a vender decorações de Natal. Que servem para nos lembrar que o Natal é um momento de luz. Só que se esqueceram de mencionar que essa dita “luz” é a luz interior. Não precisa de lâmpadas de led e esterofonia. Ouve-se com o coração. E não incomoda os vizinhos.

Sim, eu também tenho dessas coisas em casa. Tenho uma árvore artificial de meio metro de altura desde 2002. Na altura morava num T1 e agora estou num T4. Por isso, a nossa árvore decorada assemelha-se mais a um ficus que anda meio perdido no meio da sala, mas que pelo menos está devidamente sinalizado. As bolas que penduramos na árvore assemelham-se a malteseres com cores de tão pequenas que são e já as penduramos com clips porque “se o clip funcemina…porque mudar?”.

E depois temos uma panóplia de coisas que a miudagem faz na escola e traz para casa, feita de material reciclado e purpurinas que causam uma infestação que me faz ter nostalgia da infestação de formigas que tive na cozinha. Tenho ainda daquelas luzes com leds que ficam fantásticas tal como as guardei: numa bola e completamente enrodilhadas. Mas que acabam por servir de acompanhamento a muito palavrão dito em voz baixa (não vá a miudagem tirar notas) enquanto as desenrodilho. De resto usamos ainda um presépio de barro feito por mim quando ainda não tinha filhos. Portanto num universo paralelo daqueles onde só lá se chega depois de se passar 3 wormholes e virar na terceira à esquerda.

Perguntas a fazer

É muito? É pouco? Para nós chega. Mas não te sei dizer se o que tu tens em casa é suficiente ou não. Isso é algo que tens que ser tu a ajuizar. O que nós temos dá-nos um gozo enorme a usar porque o fazemos juntos. Adoramos rituais e adoramos decorar a casa com o que temos. Tanto que não precisamos de mais. O que compramos há 10 anos serve e provavelmente irá servir outros 10. Porque no fundo o que faz a decoração brilhar somos nós. O resto é acessório.

Conselho final? Quando te deparares com a mesma cena do supermercado, pára um pouco antes de te deixares levar pela onda consumista que estrategicamente nos puxa a todos nesta época e pergunta (“sê brutalmente honesto”, como já me disse uma pessoa que muito aprecio):

  • O que é que precisamos concretamente?
  • O que faz da decoração algo tão especial?
  • Será a mesma coisa se comprar e a colocar em minha casa sozinho?
  • Haverá formas de se decorar a casa mesmo sem comprar?

As respostas são tuas. Não interessa. Interessa só que as faças e não deixes nunca de questionar e de pensar que todas estas pequenas compras que fazes irão ter uma consequência para a tua carteira e sobretudo e de forma mais grave para o ambiente.

Sobre o Autor:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

2 Comentários

  1. Diana 07/12/2017 em 17:35 - Responder

    Mais um fantástico artigo! Muito obrigada pelo excelente trabalho!
    Este ano estou a alterar também muitas tradições que já não nos fazem sentido. O mais difícil é conciliar com a restante família, mas lá chegaremos!

  2. Rita Accarpio 08/12/2017 em 21:16 - Responder

    Obrigada pelo teu comentário simpático, como sempre! 🙂

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