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O que evitar quando destralhas Roupa!

Está frio, não está?

Realmente houve tamanho tour de force no estado meteorológico do nosso pedacinho de terra lusa que fomos todos apanhados desprevenidos, não é?

É que tínhamos acabado de sair daquele solzinho bom do verão de São Martinho e, de repente, somos atirados para as goelas de um Outono a dar de frosques para um Inverno Wagneriano. Nem deu tempo para um espirro alérgico como deve ser.

Sabem, aqueles espirros que a gente dá quando se passa pelas folhas caídas das árvores na rua. Aqueles que nos deitam a alma para fora mas ficamos tão maravilhados com aquelas cores todas que até nem nos importamos de estar com as narinas com o dobro do tamanho, os olhos de uma suricata mal parida e uma reserva de muco nasal que já pede a sua própria barragem do Alqueva. Esses mesmo.

Nada disso, passamos directamente das t-shirts e dos vestidinhos de verão para os camisolões das renas e os collants grossos da avó sem passar pela casa de partida.

troca de estação

Trocas para que vos quero

Não há melhor pretexto do que a troca da roupa de estação para abrir a caça ao trapo. Começamos assim uma verdadeira revolução dentro das quatro paredes do nosso famigerado closet. Sim, porque agora em nossas casas não há armários. Há closets. Que é para dar mais estilo à coisa e venderem-se T2 como pãezinhos quentes. Ai ninas.

Então aproveitando a deixa do upgrade do closet, vamos começando a destralhar a nossa roupinha, desventrando o nosso armário implacavelmente. E, armados em arqueólogos do têxtil e Indiana Jones da écharpe, vamos apanhando enérgicas baforadas de pó de múmia egípcia. Pelo caminho deparamo-nos com peças que quase precisariam de um teste de carbono 14. Só para ver mais ou menos há quanto tempo não as vestimos.

E cometemos erros. É claro que cometemos erros. Resmas deles. Porque isto de destralhar é como tudo. Não vai à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Exige aquela coisinha gira que se chama melhoria contínua. Ou, se preferirem uma comparação mais agradável, é um pouco como acontece com os vinhos: quanto mais tempo e experiência mais saboroso fica. A não ser que passe tempo demais e que não se faça nada entretanto o que equivale a um belíssimo e fantástico vinagre. Pelo menos a garrafa é gira.

Então sem mais demoras e porque um Indiana Jones que se preze não para quieto, aqui vos deixo com a devida descrição detalhada e etiqueta de proveniência:

4 erros que deves evitar quando destralhas a tua roupa!

objectivos

1º Erro: Não ter um objectivo bem definido!

Ora bem, uma das coisas principais em qualquer projecto, seja ele de organização, seja ele de outra disciplina qualquer, precisa de um destino final, de um objectivo.

Sabes à partida que tens de ter um armário que te sirva, certo? Que tenha uma boa acessibilidade e visibilidade? E talvez que possa conter várias categorias de roupa e para vários propósitos?

Posso dizer-te que, pela minha experiência, não há dois armários iguais. Bem, as pessoas também não são iguais, pois não. Ok, os gémeos são. Mas, mesmo assim, esses dois gémeos vão ter dois armários completamente diferentes. Lembra-te que os nossos espaços físicos reflectem o que somos, reflectem o nosso dia-a-dia, as nossas actividades e as nossas escolhas. E também o nosso modus operandi.

Assim, não te posso dizer o que deves esperar do teu armário, como ele te vai servir no teu dia-a-dia. Terá de ser a tua personalidade e o teu auto-conhecimento a fazer isso. Pouco a pouco vais visualizando o que queres, o que é verdadeiramente o armário dos teus sonhos.

Atenção que não estou a falar daqueles armários todos xpto de revista. Nada de objectivos irrealistas. Focaliza o que tens à frente e pensa no que seria uma versão 2.0 desse cenário. Com as tuas escolhas, com tudo o que faz os vários momentos do teu dia: como te vestes, o que usas mais, que conjuntos preferes, o que vestes para trabalhar, o que vestes em alturas de lazer, etc.

Já fizeste isso? Óptimo! Tens a tua visão e os teus objectivos definidos! Muito bem!

Agora só falta fazer uma lista do que tens de fazer para lá chegar.

desculpas

2º Erro: Arranjar desculpas  para “safar” a tua roupa

Começaste a destralhar e dás por ti a recuar. A tua tomada de decisão começa a perder ritmo e a afrouxar à quarta peça que te passa pelas mãos. Deixas de ter certezas e segue-se uma enxurrada de dúvidas. E muitas emoções à mistura.

“Se calhar ainda vou vestir isto mais uma vez…”

“Olha que isto até vai dar jeito para aquela festa!”

“Agora talvez não mas quando perder uns quilinhos…?”

“Ainda vou guardar isto para a minha filhota, mas para já fica aqui!”

Parecem-te familiares estas frases? Pois é, estas são algumas das desculpas que vão sendo utilizadas aqui e ali para “safarmos” a nossa roupa, evitando o destino do descarte. Por detrás de cada pequeno retrocesso e de cada desculpa há uma história de memórias, esperanças e apegos que se vai contando.

Porque guardamos o que somos. E é difícil libertarmo-nos do que já fomos e abrir portas a versões melhoradas de nós mesmos. Custa, não custa? As roupas trazem-nos por vezes a capa e a protecção que precisamos e tornam-se símbolos do que conseguimos ser e fazer, no passado. Não nos imaginamos a reiterar essa vivências de outra forma e com outras roupagens (interiores e exteriores).

Daí que nos agarramos ao vestido meio encardido que “vamos vestir só mais uma vez” porque nos lembra uma maravilhosa tarde outonal que passamos em boa companhia, lembras-te? Ou daquela entrevista de emprego que nos trouxe o nosso ganha-pão.

Mas está tão encardido e usado…

Por isso, olhamos para as calças de ganga de outros tempos que “agora não servem mas quando perder uns quilinhos ainda vou vestir ”. As que nos lembram da figura física que tínhamos, sabes, aquela antes de termos tido filhos. Aquela à qual temos dificuldade em dizer adeus.

Mas as calças estão tão desconfortáveis…

Por esse motivo, queremos passar o testemunho aos filhos porque “eles vão ser tão felizes e bem sucedidos como nós a usar estas mesmas roupas”.

Mas ainda vão passar uns anos até lhes servir…

Há uma coisa muito, mas mesmo muito importante que te quero dizer: há um denominador comum disto tudo, sabes? És tu. E tu vales bem mais do que as tuas roupas. Não foram elas que fizeram as tuas memórias, foste tu. Tu és o motor e não há medida, nem mesmo as do teu corpo, passado ou presente, que te possa definir. A única medida é a das tuas acções e escolhas. O que decidires que é válido e o que não é válido. As roupas vão e vêm: tu ficas.

Por isso sê implacável e destralha as tuas roupas sem medos. Despede-te do passado com respeito pelo que foste e abraça com orgulho e coragem o que se segue, convicta de que o teu armário é apenas uma parte, um mero figurante que te ajuda a avançar.

destino definido = doar

3ª Erro: Não dares um destino bem definido ao que destralhas

Então sempre conseguiste destralhar? Muito bem! O teu armário até respira finalmente novo ar. E ficaste com 3 sacos cheios de roupa que já não usas.

Depois de juntares essa roupa toda começas logo a pensar no teu armário e no que vais colocar lá dentro. E a roupa continua dentro dos sacos sem destino nem dono. A impedir a passagem de pessoas e coisas. E o pior disto é que, enquanto ficarem nesses sacos, sem um segundo passo, a roupa continua a ser tua, não é? No fundo, só mudou de sítio e continua a estar a mais em tua casa.

Este tipo de situações acontece mais vezes do que pensas. Por norma qualquer projecto em que se destralha precisa de muita energia e foco, sendo um processo mental  emotivo muito intenso. Quando esse momento chega ao fim a pessoa que se viu foco de tanta tomada de decisão está exausta. Assim, deixa quase sempre para depois a última tomada de decisão, a que diz respeito ao destino a dar ao que se destralhou.

“Os verdadeiros problemas começam quando começamos a procrastinar essa decisão, por falta de tempo, por falta de energia ou porque, pura e simplesmente, nos esquecemos. E os sacos lá ficam, no limbo da nossa indecisão.”

Por esse motivo, existem Professional Organizers (tais como eu) que optam por levar tudo o que é destralhado numa sessão, para que não fique em casa do cliente. Desta forma se evitam esses limbos e o cliente pode dar continuidade ao seu projecto. Até porque esses limbos vêm com um bónus menos agradável: as recaídas, ou seja, o voltar atrás na decisão, voltando tudo para dentro do armário e à estaca zero.

Não havendo um professional organizer à vista (o que é pena porque dão um jeitaço daqueles), terás de ser rápida na tua tomada de decisão. Decide à partida e antes de destralhar o que vais fazer com o que sair do teu armário. Se preferires doar, contacta de antemão as instituições que irão ficar com as tuas roupas (se vierem recolher em casa melhor). Assim fica já definido um rumo e a aquele esforço difícil no final evitado.

Quem é amiguinha, quem é?

remendar

4º Erro: Guardares o que deve ser remendado… num saco… dentro do armário…

Esta é uma versão mais fina e subtil do que disse no capítulo anterior. 

É uma das coisas que fazemos quando estamos a destralhar, certo? E até temos um bom leque de roupas que a) nos servem (figurativamente e literalmente) b) usamos frequentemente c) estão em bom estado. Com a excepção daquela parte que começou a descoser.

Que fazemos a seguir? Vai pró saco. O primeiro que estiver à mão. Porque temos sempre uma tia, avó, cunhada, afilhada, madrinha que tem jeito para esta coisa das agulhas. E lá fica a roupinha no saquinho, de molho, na esperança de um dia poder ver para além do polietileno. Uma variante clássica é a de ficar dentro do armário.

Mais uma vez, temos aqui uma decisão a meio gás que, efectivamente, é uma indecisão ou, melhor ainda, uma não-decisão (isto da linguística é coisa gira).

Como dar a volta à questão? Para além do habitual telefonemazinho, podemos também ter já um local predefinido onde colocar esse saquinho. A entrada da casa é efectivamente um bom local, sobretudo se fizermos disso um hábito. Poderás também determinar um dia por semana onde poderás deixar roupa a precisar de ser remendada, planeando de preferência em conjunto com o teu dia-a-dia, com os teus horários de trabalho e de escola da criançada.

Quanto mais incorporares estes pequenos passos na tua rotina, melhor. Fica tudo muito mais fácil.

Agora que já sabes o que evitar, vem descobrir que tipo de “esqueletos” se esconde nos nossos armários, neste nosso artigo!

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Sobre o Autor:

Decidida, perseverante e viciada em desafios, mãe de 3 filhotes e esposa de italiano, a Rita é também, nas horas vagas, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas, um curso que, indirectamente, a impulsionou a descobrir o mundo, ainda inexplorado, dos dispositivos médicos e da criopreservação de células estaminais, onde exerceu um papel de relevância no apoio logístico. Teve desde cedo o bichinho da organização, com a mania de querer sempre melhorar tudo e encontrar soluções para toda a gente e foi nesses dois âmbitos dos serviços médicos que começou a perceber que havia ali algum padrão reconhecível e caminho a singrar. Acabou a seguir o trilho de Professional Organizer, profissão ainda desconhecida em território português, fez formação nos Estados Unidos e tornou-se numa das POs pioneiras em Portugal, com formação certificada pela NAPO (National Association of Professional Organizers) da qual é também membro. Já andou pelo Consulado de Itália no Porto e pelo ramo imobiliário, mas é na OrganiGuru, a escrever o seu blog de ideias de organização (OrganiBlog) e a ajudar clientes a organizarem-se melhor que a Rita se sente como peixe dentro de água. Perita também na gestão de projectos e pessoal, nos seus tempos livres adora viajar e aprender novas línguas, deixar no perfil do FB as mil e uma ideias que lhe passam pela cabeça, resolver o cubo de Rubik 3x3 (quase) em apneia e aventurar-se pelo mundo da pastelaria, a sua catarse e terapia pessoal, sobretudo se envolver chocolate com 70% de sólidos de cacau. E uma cervejinha artesanal.

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