Mini-introdução natalícia

Finalmente, após semanas de dura labuta, eis-nos de novo nas festividades natalícias e em pleno solstício de inverno. Que é a verdadeira origem das festividades natalícias, a bem dizer…

Com estas vêm as festas e a sua devida preparação. E é isso que hoje me traz por aqui a este meu blog. Um dos meus objectivos a longo prazo no que ao meu blog diz respeito é conseguir encurtar um pouco o comprimento dos meus artigos. Isto para evitar que quem os leia fique a com a impressão de estar a ler o tratado de Lisboa.

Por esse motivo, esta introdução tem os dias contados. Ou palavras se quiser ser mais específica e deixar as metáforas de lado. Aqui vos deixo então em jeito de pequeno manual de sobrevivência a festas natalícias:

8 Segredos para uma festa organizada! 

1. Designa tarefas para todos

Não queiras fazer tudo sozinh@. Podes sempre pedir ajuda e delegar algumas tarefas com as quais não te sentes tão à vontade para quem é perito. E aquele teu amigo com um jeitaço para fazer sobremesas vem mesmo a calhar. Se tiveres a cozinhar para um inteiro pelotão, vais acabar por chegar à hora do jantar extenuad@. E sem vontade nenhuma de gozar seja o que for. Se tiveres ajudas em casa, está na hora de cobrar!

Assim, põe a tua cara metade a cortar o ananás. Se tiveres filhos mais velhos e capazes (por mais que eles digam que não o são), pede-lhes para pôr a mesa ou põe-nos a lavar pratos. Numa família/comunidade que se preze todos ajudam (melhor ainda: fazem a sua parte)!

2. Arruma o frigorífico

É um dos nossos erros mais comuns: planeamos o jantar e achamos que o nosso frigorífico é aparentado com a bolsa da Mary Poppins. E que tudo irá caber na perfeição como no jogo do Tetris. Não podíamos estar mais enganad@s. Na verdade, o nosso frigorífico assemelha-se mais a um Rubik’s Cube onde há uma ordem específica para tudo caber bem apertadinho mas infelizmente nos é totalmente desconhecida e só os génios a conseguem decifrar.

Resultado: a poucos minutos da chegada dos convidados e nós ainda de t-shirt malcheirosa e de pantufas acabamos de gatas, com o jarro dos pickles e o prato do bacalhau no chão da cozinha a gritar obscenidades ao nosso Smeg (no meu caso Siemens). A beber uma bijeca para arranjar um espacinho para guardar aquele tupperware esquisito e que está a pingar uns líquidos muito estranhos.

Regra de ouro: arruma bem o frigorífico de manhã ou no dia anterior. Prevê que espaços irás necessitar para colocares a sobremesa, as bijecas e o tintol caseirinho que o teu tio que chegou de terras de Monção te ofereceu. Arranja espaços para o que irá entrar no frigorífico no final da refeição, tendo em conta que colocar mais de 4 items acavalados uns em cima dos outros não é perícia, é um número de circo com todas as probabilidades de correr mal e um desafio às leis de Newton.

E, por amor de Deus, deita-me fora essa panela com restos de sopa de nabiça: uma semana só tem 7 dias, não tem 9 e nem o teu hipotético cão quereria comer isso agora.

3. Lê receitas

O segredo para qualquer prato é estar bem preparado: não é questão para trazeres a tua faca do mato ou vestires a camuflagem, mas cozinhar ou preparar novos pratos é uma acção que requer realmente um plano estratégico e um bom armamento. Nada soa pior do que um soufflé de peixe que se parte a golpes de martelo e com um ligeiro sabor a chocolate. A improvisação é boa para os comediantes, para os chefs de renome internacional (não é o teu caso) e para qualquer pessoa que tenha levado com um piano em cima.

Escolhe bem a receita, certifica-te que é do gosto de todos e que não há nenhum alergénico susceptível de recriar a mesma cena do oitavo passageiro na tua mesa de jantar. Também é recomendável que não exija de ti os dotes de um malabarista russo num trapézio. Opta por coisas simples. A genialidade dos grandes pratos está na simplicidade.

Também não caias na ratoeira dos ingredientes raros e difíceis de arranjar que necessitem de pelo menos 3 dias de avião, uma peregrinação com um sherpa pelos Himalaias para encontrar aquela especiaria especial guardada num cofre e que acabará numa saída apressada com uma bola de pedra atrás de ti e indígenas a perseguir-te com setas. O Indiana Jones tentou isso e não me cheira que os seus cozinhados fossem grande coisa (como prometido, a referência costumeira ao Indiana Jones…).

Escolhe, estuda e prepara-te. Para além dos ingredientes é necessário saber se haverá alguma ferramenta vulgo forma ou utensílio de cozinha que te possa fazer falta: se for preciso pede o que falta à mãe, ao tio ou à avó – com todas as probabilidades e dado o grande legado gastronómico das gerações anteriores são bem capazes de ter tudo o que procuras.

4. Prepara sobremesas no dia anterior (se não optares pelo outsourcing)

Estarei talvez a dizer algo que cai na categoria das coisas “Dah!”, mas na verdade, se pretendes acabar o teu jantar em beleza com uma sobremesa passível de provocar o delírio dos anjos e a inveja do demónio, nada melhor do que prepará-la no dia anterior.

Normalmente os pratos doces são de fácil conservação, podem ser guardados no frigorífico ou no congelador de um dia para o outro e muitos até ganham melhor consistência e textura. Prepara bem os ingredientes e acessórios e reserva o serão do dia anterior para enveredar pelos meandros da culinária doce (mais uma vez, não havendo tempo nem paciência, opta pelo outsourcing para o amigo jeitoso que sabe fazer umas coisas).

“Depois temos o “problema” dos filhos (que eu com a minha tendência para o Lean chamo “oportunidade de melhoria”… tá bem, tá…).”

Todos nós temos na cabeça aquela imagem idílica de mãe anos 50 toda sorrisos Prozac, saia arredondada que preenche boa parte da cozinha, rodeado dos seus cinco filhos miraculosamente limpos e quietos como se tivessem ingerido uma quantidade massiva de Ritalin que observam todos os movimentos da mãe, ansiosamente à espera da primeira colher suja de chocolate.

A realidade é muito diferente. Até porque agora os gajos também já andam pela cozinha e fazem coisas fixes! Daí que estes conselhos sejam válidos para quem quer que normalmente tenham estas incumbências na cozinha: senhores ou senhoras.

Com 3 crianças e demasiadas tentativas no repertório, posso certificar-vos que não é só difícil, é impossível. Neste contexto, mais vale esperar que os filhos estejam todos fora da cozinha. E lembra-te de fechar tudo a cadeado com ameaças de morte para quem enfiar um dedo que seja na sobremesa, senão acordas no dia seguinte com o frigorífico vazio e com uma leve vontade de estrangular alguém.

5. Prepara a mesa com antecedência

Este conselho é mais indicado se vais fazer alguma cerimónia e precisas de usar todo o armamento terrestre e aéreo disponível em casa porque vais receber o cônsul da Nigéria ou os teus sogros (alguns tipos de sogros – entenda-se – não os meus, por exemplo). Ou simplesmente porque te deu na gana e queres pôr a casa bonita, talvez para disfarçar a grande quantidade de cheiros, manchas e marcas de DNA que foi ganhando com os tempos.

Porque não?

Para que isso aconteça da melhor forma, convém que seja algo feito antes de começarem a cozinhar e antes dos convidados chegarem. Assim também terás tempo para verificar se haverá algum talher ou prato que precise de ser limpo ou algum copo a substituir.

Claro que na maior parte das vezes, tudo é feito com maior informalidade e até podes puxar os teus amigos/familiares para te darem uma ajuda nesse sector. Também pode ser um bom momento para a prole fazer alguma coisa de útil (desde que não tenha nada de valioso que se possa partir e que eles tenham idade para isso). Até pode ser que aprendam mais alguma coisa enquanto lidam com talheres diferentes e pratos mais esquisitos. Deixa-os explorar (mas arranja um bom seguro).

6. Deixa sempre tudo limpo a cada passo

Lembras-te do filme Ratatouille? Uma das coisas que mais apreciei nesse filme foi o detalhe na descrição da logística de uma cozinha de restaurante. Especialmente as suas regras de ouro. Uma delas era precisamente “Keep your station clear!”, “Deixa a tua zona de trabalho sempre livre!”. É importante que, à medida que avançamos, vamos deixando atrás de nós loiça limpa e superfícies libertas para o que virá a seguir por vários motivos.

O primeiro é mais evidente: se vais utilizar a mesa a seguir para fazer um docinho, convém que a mesma não tenha espinhas de peixe ou restos de cebola. Os outros motivos prendem-se com os usos normais de uma cozinha. E o tráfego de pessoas na mesma. Quem tem crianças pequenas sabe do que estou a falar. Nada pior para quem está a cozinhar do que ter várias formiguinhas a marchar no sítio onde esteve a cozinhar, ainda por limpar.

Pensa nisso como uma epidema: o que sujaste numa determinada área da tua cozinha e que não se limpou, irá multiplicar-se pelo resto da casa. Acabas por ficar com sofás cheios de farinha, cadeiras com restos de chocolate ressequido e o chão transformado numa pista de patinagem.

E é sempre bom acabar uma refeição tendo só os pratos, copos e talheres (e travessas) para limpar no fim e com espaço para os meter em água na banca.

7. Usa áreas diferentes para cada actividade

Se o teu tempo não é muito ou tens de esperar que um determinado prato acabe de cozinhar, é sempre melhor ir fazendo outras coisas contemporaneamente. Para isso precisas de criar espaços diferentes.

A zona do fogão está ocupada com um tacho, colheres de pau sujas e especiarias? Podes sempre ir para o balcão do outro lado preparar a salada. Ou começar a preparar os ingredientes para o bolinho na ilha da cozinha ou numa mesa improvisada à parte. Nada pior para um prato que estás a cozinhar do que ficar com falta de espaço para manobras.

Planeia com antecedência as zonas que vais utilizar, para o quê e quem as vai utilizar. E não te esqueças de criar espaços para lixo que não estejam em cima do acontecimento para não haver misturas de cheiros ou outras coisas piores.

8. Prepara os ingredientes do que vais cozinhar antes de começar

Dispõe taças, tacinhas, colheres, pratos e até uma balança em cima do balcão ou mesa onde vais começar a próxima aventura gastronómica. Certifica-te que não precisas de mais nada em termos de utensílios. Agora vai buscar todos os ingredientes necessários. Começa a doseá-los para dentro das tacinhas e taças com as colheres de medida e balança. Vai guardando todos os ingredientes no seu pacote de origem no sítio onde estavam se já não vais precisar mais deles. Confirma duas vezes que tens tudo para iniciar. Confirma também se a zona que escolheste tem uma tomada por perto e uma banca com água pronta para lá colocar o que vais utilizando. Agora sim: estás pront@ para começar.

De outra forma, se não perderes 10 a 15 minutos com esta preparação irás ter de te conformar com a chamada “Tarantella della Cucina”. É uma dança característica protagonizada por ti pelas gavetas, prateleiras e armários de cozinha à procura dos ingredientes enquanto os vais misturando. Deixando um reconhecível rasto de manteiga, farinha e outros componentes por todo o lado onde passas a mão.

A não ser que estejas a precisar desesperadamente de exercício físico e não tenhas tempo suficiente para dar um passeio ou ir a um ginásio, não aconselho este tipo de danças na cozinha. Sobretudo se não tiveres muito tempo para gastar.

Bem, agora só me resta dizer o que é óbvio nesta altura do campeonato: boa sorte e boas festas! Espero que possa ter contribuído para festins mais organizados e repastos mais harmoniosos!

Deixo-te ainda este inspiradíssimo artigo sobre esta época natalícia!

E se ainda andas à procura de prendas, espreita ainda este!